UM CONCEPT AUDACIOSO: A HISTÓRIA DO ASTON MARTIN V12 VANQUISH BERTONE JET 2 DE 2004
Em uma época em que a Aston Martin consolidava sua imagem de luxo britânico com toques de inovação americana sob a égide da Ford, o Salão de Genebra de 2004 revelou uma surpresa italiana que misturava herança clássica com design futurista: o Aston Martin V12 Vanquish Bertone Jet 2. Este conceito de shooting brake - um familiar esportivo de quatro portas - baseado no icônico V12 Vanquish, homenageava o lendário Jet original de 1961, projetado pela Bertone para o chassi DB4 GT. Com apenas uma unidade construída, o Jet 2 representava o sonho de uma produção limitada que nunca se materializou, mas que continua a encantar colecionadores e entusiastas como um emblema da colaboração entre a elegância de Gaydon e o estilo radical de Turin. Avaliado hoje em mais de 1 milhão de dólares em leilões especializados, o carro permanece como um “o que poderia ter sido” na história da Aston Martin.
A trajetória do Jet 2 está intrinsecamente ligada à do V12 Vanquish, o carro que marcou o renascimento da Aston Martin no início dos anos 2000. Desenvolvido a partir do conceito Project Vantage de 1998, o Vanquish de produção estreou no Salão de Genebra de 2001, equipado com um motor V12 de 5.9 litros de 460 cv, chassi de alumínio e fibra de carbono, e uma transmissão semi-automática de 6 velocidades inspirada na Fórmula 1. Projetado por Ian Callum, o modelo ganhou fama eterna ao ser o carro de James Bond no filme 007 - Um Novo Dia para Morrer (2002), impulsionando as vendas para cerca de 1.600 unidades até 2004. Foi nesse contexto de sucesso que a Bertone, atelier italiano fundado em 1912 e famoso por colaborações com marcas como Alfa Romeo e Lamborghini, propôs uma reinterpretação prática e luxuosa do esportivo.
O Legado do Jet Original: Inspirando o Conceito Moderno
Para entender o Jet 2, é essencial voltar ao original: em 1961, Nuccio Bertone, visionário da Carrozzeria Bertone, transformou um chassi de Aston Martin DB4 GT em um modelo único, apelidado de ‘Jet’ por sua aerodinâmica futurista e linhas inspiradas em aviões a jato. Com teto fastback, portas suicidas e um interior minimalista, o carro de 1961 foi um one-off encomendado por um cliente privado, mas sofreu um incêndio nos anos 1980, sendo restaurado pela Aston Martin Works nos anos 1990. Esse ícone raro, que venceu prêmios em concours como Pebble Beach e Villa dEste, serviu de musa para o Jet 2, revivendo a parceria Aston-Bertone iniciada nos anos 1950 com o DB2/4 Spider.
No início dos anos 2000, com a Aston Martin sob propriedade da Ford desde 1987, a marca buscava expandir sua linha além do coupé de duas portas. O Vanquish, com sua estrutura avançada de alumínio e carbono, era o candidato ideal para experimentos de carroceria. Em 2003, a Bertone, enfrentando desafios financeiros, mas ainda criativa sob a liderança de Lilli Bertone, iniciou o projeto do Jet 2 como uma homenagem ao centenário da Aston Martin (que ocorreria em 2013) e aos 60 anos de colaboração entre as empresas. O nome ‘Jet 2’ era uma clara referência ao predecessor, prometendo uma evolução para o século XXI: um familiar de luxo que combinava performance com versatilidade para quatro ocupantes.
A Revelação em Genebra: Design e Inovação Técnica
Apresentado em março de 2004 no Salão de Genebra, ao lado do Vanquish S - versão atualizada do Vanquish com 520 cv e estreia no Salão de Paris mais tarde naquele ano -, o Jet 2 roubou a cena com sua carroceria completamente redesenhada pela Bertone. Baseado em um chassi de pré-produção do Vanquish, estendido em 210 mm no entre-eixos para 2.900 mm, o conceito mantinha a essência mecânica do doador: motor V12 aspirado de 5.935 cc, produzindo 450 cv a 6.500 rpm e 556 Nm de torque a 4.000 rpm, tração traseira e freios a disco ventilados. Aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 4.7 segundos e velocidade máxima acima de 300 km/h faziam dele um ‘shooting brake’ veloz, capaz de rivalizar com superesportivos.
O design, assinado por Giuliano Toselli e sua equipe, fundia elementos clássicos da Aston com toques italianos radicais. Faróis reminiscentes do Vantage, intake frontal tradicional e vents estilizados nos para-lamas garantiam a identidade britânica, enquanto a traseira fastback com tampa-liftgate ampla e lanternas integradas evocava o Jet de 1961. O interior, para quatro passageiros, era opulento: couro Connolly, Alcantara, painéis de madeira e um sistema de infotainment Alpine, com bancos traseiros reclináveis para conforto em longas viagens. Peso total em torno de 1.800 kg, graças ao uso extensivo de alumínio e compósitos, e rodas de 19 polegadas em design exclusivo completavam o pacote. A Bertone vislumbrava uma produção limitada de até 10 unidades, com preço estimado em 300.000 dólares - um acréscimo ‘razoável’ sobre o Vanquish padrão, para ‘connoisseurs refinados’, como descrevia a empresa.
Embora aplaudido pela imprensa - a Autocar o chamou de “o familiar mais sexy do mundo” -, o Jet 2 não avançou para produção. A Aston Martin, focada na linha de produção em Newport Pagnell (que encerraria em 2007 com a mudança para Gaydon), priorizou o Vanquish S e colaborações com a Zagato, como o roadster one-off também de 2004. A Bertone, por sua vez, enfrentava instabilidade financeira, culminando em sua falência em 2014.
Legado e Presença Contemporânea: Um Ícone Conceitual
O Jet 2 único sobreviveu como conceito, sendo exibido em eventos chave. Em 2013, durante as celebrações do centenário da Aston Martin em Kensington Palace, juntou-se ao Jet original de 1961 e ao Jet 2 Plus 2 baseado no Rapide (outro conceito Bertone de 2013), formando um trio histórico. Hoje, de propriedade privada, o carro aparece em concours delegance e leilões, simbolizando o ‘quase’ da indústria automotiva. Sua influência ecoa em modelos posteriores, como o Vanquish Zagato Shooting Brake de 2017, e em restaurações modernas pela Aston Martin Works.
O Aston Martin V12 Vanquish Bertone Jet 2 de 2004 não foi apenas um conceito; foi uma ponte entre eras, unindo o glamour de Bond com a audácia italiana. Em um mundo de SUVs de luxo, ele lembra que a verdadeira inovação pode vir de colaborações ousadas - mesmo que fiquem no papel. Para fãs da Aston, permanece como um sonho sobre rodas, pronto para ser revivido em uma era de elétricos e personalizações ilimitadas.