VOLKSWAGEN GOLF I (1974): O CARRO QUE REDEFINIU A MARCA DE WOLFSBURG
Em março de 1974, nascia na Alemanha um automóvel destinado a mudar para sempre os rumos da Volkswagen. Depois de décadas sustentada pelo sucesso extraordinário do Fusca, o fabricante de Wolfsburg finalmente colocava em produção o Volkswagen Golf, apresentado como sucessor indireto do Käfer e responsável por inaugurar uma nova filosofia dentro da marca. O projeto, conhecido internamente como EA 337, abandonava definitivamente a arquitetura de motor traseiro refrigerado a ar e adotava motor dianteiro transversal, tração dianteira e uma carroceria de dois volumes com grande tampa traseira. O resultado era compacto por fora, espaçoso por dentro e muito mais adequado às novas exigências do mercado europeu.
O desenho foi confiado à Italdesign, de Giorgetto Giugiaro, que concebeu uma carroceria de linhas retas, superfícies limpas e proporções extremamente racionais. Capô curto, grande área envidraçada, teto relativamente alto e traseira quase vertical proporcionavam excelente aproveitamento do espaço, enquanto os grandes grupos ópticos retangulares e os para-choques envolventes conferiam ao Golf uma identidade própria. Era um desenho deliberadamente funcional, mas tão equilibrado que acabaria se tornando uma das silhuetas mais reconhecíveis da história do automóvel. A solução também estabelecia as bases visuais que seriam reinterpretadas pelas gerações seguintes.
Mecanicamente, a transformação era igualmente profunda. O Golf de estreia utilizava motores de 4 cilindros em linha refrigerados a água, montados transversalmente na dianteira. Na versão inicial, o propulsor de 1.093 cm³ desenvolvia aproximadamente 50 cv, enquanto o 1.5, oferecido posteriormente, chegava a cerca de 70 cv. A transmissão manual de 4 velocidades e a tração dianteira completavam um conjunto simples e eficiente. A suspensão dianteira independente do tipo McPherson e o eixo traseiro semi-independente com braços interligados contribuíam para um comportamento dinâmico muito mais moderno que o do Fusca.
A racionalidade do projeto aparecia também na utilização do espaço. Com apenas cerca de 3.70 metros de comprimento, o Golf conseguia acomodar quatro adultos com razoável conforto e oferecia um compartimento de bagagem bastante versátil graças ao banco traseiro rebatível e à quinta porta. A Volkswagen havia compreendido que o consumidor europeu dos anos 1970 queria um automóvel pequeno externamente, mas sem abrir mão de praticidade. Essa combinação seria justamente a fórmula que transformaria o Golf em referência para toda uma nova categoria de automóveis compactos.
O momento de sua chegada ao mercado não poderia ser mais importante. A primeira crise do petróleo, iniciada em 1973, havia provocado uma mudança brusca nas prioridades da indústria automobilística mundial. Automóveis grandes, pesados e de elevado consumo começavam a perder espaço, enquanto modelos compactos e econômicos ganhavam importância. O Golf apareceu exatamente nesse cenário, oferecendo dimensões reduzidas, mecânica eficiente e uma utilização muito mais racional do combustível e do espaço. A Volkswagen encontrou, quase por acaso, o automóvel certo para uma Europa que estava mudando.
E a transformação não demoraria a produzir resultados. Em 1975, chegaria uma versão que acrescentaria uma nova dimensão ao projeto: o Golf GTI. Equipado com o motor 1.6 de injeção mecânica de combustível, desenvolvia 110 cv, número extraordinário para um hatchback compacto daquela época. Pesando aproximadamente 810 kg, o GTI podia acelerar de 0 a 100 km/h em cerca de 9 segundos e atingir aproximadamente 182 km/h. Surgia assim uma fórmula que seria copiada inúmeras vezes: carroceria compacta, baixo peso, motor potente e comportamento esportivo, mas mantendo a praticidade cotidiana.
O Golf também rapidamente deixou de ser apenas um hatchback. A família cresceu com versões de três e cinco portas, perua Golf Variant, conversível produzido pela Karmann e diferentes configurações mecânicas. Em 1976, apareceria ainda o primeiro Golf com motor diesel, um 1.5 com cerca de 50 cv, reforçando a vocação econômica do modelo. Em alguns mercados, a Volkswagen ofereceu inclusive versões com diferentes níveis de acabamento e motores, permitindo que o mesmo projeto atendesse desde compradores interessados em economia absoluta até aqueles que buscavam desempenho.
Outro aspecto importante foi a internacionalização. O Golf rapidamente passou a ser produzido fora da Alemanha, inclusive na África do Sul, México, Austrália e Estados Unidos, onde recebeu o nome Rabbit. A plataforma demonstrava uma extraordinária capacidade de adaptação a diferentes mercados e regulamentações. Na América do Norte, por exemplo, o Rabbit ajudou a Volkswagen a competir em um segmento dominado por modelos compactos locais e japoneses.
Quando a produção da primeira geração chegou ao fim, em 1983 na Europa, o Golf I já havia ultrapassado 6 milhões de unidades produzidas, um resultado extraordinário para um modelo que havia surgido justamente com a missão de substituir o insubstituível Fusca. Mais do que substituir seu antecessor, porém, o Golf criou uma nova identidade para a Volkswagen. A marca que durante décadas fora sinônimo de motor traseiro refrigerado a ar havia se transformado em referência mundial em compactos de motor dianteiro e tração dianteira.
O legado daquele Golf de 1974 seria ainda maior. Sua arquitetura básica - dois volumes, grande porta traseira, motor transversal e tração dianteira - tornou-se uma espécie de receita universal para o automóvel compacto europeu. Ford, Opel, FIAT, Renault, Peugeot e diversos outros fabricantes desenvolveriam modelos para disputar um território que o Golf ajudara a definir. Não por acaso, a expressão “classe Golf” passaria a ser utilizada em vários mercados para identificar todo um segmento.
O mais fascinante é perceber a distância percorrida entre o EA 276 de 1969 e o Golf de 1974. O protótipo ainda tentava conciliar o futuro com o velho boxer do Fusca; cinco anos depois, a Volkswagen finalmente tinha coragem de romper com quase tudo que havia definido sua história. O Golf I não era simplesmente o sucessor de um automóvel famoso. Era o nascimento de uma nova Volkswagen - e o início de uma linhagem que se tornaria uma das mais importantes da história do automóvel.