WILLS SAINTE CLAIRE A-68 ROADSTER (1922): O ESPORTIVO SOFISTICADO DE UM SONHADOR
Depois de conhecer a extraordinária história da Wills Sainte Claire e de seu perfeccionista fundador, C. Harold Wills, é impossível olhar para o A-68 Roadster de 1922 sem enxergá-lo como a materialização de sua visão pessoal sobre o automóvel ideal. Mais do que um simples carro de luxo, o A-68 representava uma tentativa ousada de construir um automóvel americano superior em praticamente todos os aspectos técnicos de sua época.
Lançado nos primeiros anos de atividade da marca, o A-68 fazia parte da geração inicial dos automóveis Wills Sainte Claire, período em que Harold Wills ainda buscava demonstrar ao mercado tudo aquilo que acreditava que os grandes fabricantes estavam deixando de fazer. Enquanto muitas empresas priorizavam redução de custos e aumento da produção, Wills concentrava seus esforços em qualidade, engenharia e durabilidade. O resultado foi um dos automóveis mais refinados da primeira metade da década de 1920.
Visualmente, o A-68 Roadster transmitia elegância sem excessos. Seu longo capô, os grandes para-lamas arqueados, as rodas de madeira com raios robustos e a posição baixa da carroceria criavam uma aparência esportiva, mas ainda extremamente aristocrática. Diferentemente dos grandes automóveis formais destinados a condutores particulares, o roadster era pensado para proprietários que desejavam conduzir pessoalmente seus carros, aproveitando o prazer da direção em estradas abertas.
O coração do modelo era um sofisticado motor V8 de 4.4 litros, desenvolvido sob forte influência da experiência de Harold Wills com engenharia aeronáutica. Em uma época em que muitos automóveis americanos ainda utilizavam motores de 4 ou 6 cilindros relativamente simples, o V8 da Wills Sainte Claire destacava-se pelo funcionamento suave, pela boa entrega de potência e pela robustez mecânica. A configuração permitia velocidades elevadas para os padrões da época, além de grande elasticidade em viagens longas.
Mas a verdadeira obsessão de Wills não era apenas desempenho. Era resistência. O A-68 utilizava extensivamente ligas especiais de aço-molibdênio em componentes estruturais e mecânicos. Eixos, engrenagens, virabrequim, transmissão e partes do chassi eram construídos com materiais muito mais sofisticados do que aqueles normalmente encontrados em automóveis contemporâneos. A empresa fazia questão de destacar essa característica em seus anúncios, apresentando seus veículos como alguns dos mais duráveis do mercado americano.
Outro aspecto admirável era a qualidade de construção. As carrocerias eram montadas com enorme atenção aos detalhes, utilizando materiais nobres e acabamento cuidadoso. Mesmo os modelos abertos, como o Roadster, transmitiam sensação de solidez incomum. Nada parecia improvisado ou econômico. Cada componente refletia a busca quase obsessiva de Harold Wills pela perfeição.
O A-68 também possuía características bastante avançadas para o início dos anos 1920. A direção era precisa para os padrões da época, os freios apresentavam boa eficiência e o conjunto mecânico demonstrava confiabilidade acima da média. Muitos proprietários elogiavam especialmente a capacidade do carro de enfrentar longas viagens em estradas ainda precárias, algo extremamente valorizado naquele período de expansão rodoviária nos Estados Unidos.
Como roadster, o modelo oferecia uma experiência de condução muito mais próxima do condutor. Sem a formalidade de uma limousine ou de um grande sedan fechado, permitia sentir o vento, ouvir o funcionamento do V8 e desfrutar da paisagem durante as viagens. Era um automóvel para entusiastas ricos, pessoas que valorizavam tanto a engenharia quanto o prazer de dirigir.
Entretanto, toda essa excelência tinha um preço. O A-68 era significativamente mais caro do que muitos concorrentes americanos. Enquanto a Ford vendia milhares de Model T acessíveis para a classe média, a Wills Sainte Claire produzia automóveis sofisticados destinados a uma pequena elite. Isso limitava severamente o número de compradores potenciais e contribuía para os problemas financeiros que começavam a surgir dentro da empresa.
Apesar disso, os automóveis da marca conquistaram reputação extremamente positiva entre seus proprietários. Muitos consideravam os Wills Sainte Claire comparáveis aos melhores Packard, Pierce-Arrow e Cadillac da época. Em certos aspectos mecânicos, alguns historiadores acreditam inclusive que os veículos de Harold Wills estavam à frente desses concorrentes.
Hoje, o Wills Sainte Claire A-68 Roadster de 1922 é uma das grandes raridades da Era Clássica americana. Os exemplares sobreviventes são valorizados não apenas por sua beleza, mas também por representarem uma filosofia automobilística praticamente desaparecida: a ideia de que um automóvel deveria ser construído sem compromissos financeiros ou industriais, priorizando apenas a excelência técnica.
Como curiosidade final, muitos colecionadores afirmam que dirigir um Wills Sainte Claire bem restaurado ainda hoje causa surpresa. O funcionamento suave do V8, a qualidade estrutural e a sensação geral de robustez fazem o carro parecer mais moderno do que realmente é. Talvez porque Harold Wills estivesse tentando construir não apenas um automóvel para 1922, mas o automóvel que imaginava para o futuro.