Corre La Licorne: A Saga Francesa de Inovação e Resiliência no Mundo Automotivo
No coração da efervescente Paris do início do século XX, quando o ronco dos motores ainda competia com o trote dos cavalos nas ruas de Levallois-Perret, nasceu uma das marcas mais peculiares da história automotiva francesa: Corre La Licorne. Fundada em 1901 pelo ex-ciclista e visionário Jean-Marie Corre, a empresa - inicialmente batizada de Société Française des Automobiles Corre - representava o sonho de um artesão que transitava das bicicletas para as quatro rodas. Corre, nascido em 1864 na Bretanha, havia conquistado fama nas pistas de ciclismo, com vitórias em provas lendárias como Bordeaux-Paris e recordes de 1.000 km em estrada. Sua transição para o automóvel foi natural: ele começou produzindo triciclos motorizados e quadriciclos cabriolet equipados com componentes De Dion-Bouton, um monocilíndrico de 634 cm³ que impulsionava veículos leves e acessíveis. Até 1906, cerca de 1.100 unidades saíram da fábrica, marcando os primeiros passos de uma jornada que misturaria inovação, controvérsias e um emblema mítico - o unicórnio.
O destino da marca mudou drasticamente em 1907, quando um litígio de cinco anos contra a Renault deixou Corre financeiramente arrasado. O fundador vendeu a empresa para Firmin Lestienne, um industrial têxtil do Norte da França, e seu filho Waldemar, um piloto talentoso que já havia pilotado para a Corre em corridas, conquistando vitórias em 1903 que impulsionaram as vendas. O brasão da família Lestienne ostentava um ‘licorne’ - unicórnio, em francês -, símbolo de força e pureza. Assim, nasceu o Corre La Licorne, com o animal mítico como emblema no radiador, esculpido por artistas como François Bazin. Aos poucos, o nome evoluiu para simplesmente La Licorne, um apelido carinhoso que perdurou até os anos 1950. Sob os Lestienne, a produção se intensificou: no Salão de Paris de 1908, oito modelos foram exibidos, de monocilíndricos de 5 e 8 cv a quadricilíndricos de até 30 cv, todos com motores De Dion-Bouton, destacando-se pela afinação precisa e robustez.
A Primeira Guerra Mundial interrompeu o ímpeto, forçando a fábrica a se mudar para Neuilly e a produzir material bélico. O pós-guerra, em 1918, trouxe renascimento com o modelo 7 CV, um bicombustível de 1.237 cc ou 1.593 cc, equipado com transmissões de 3 velocidades e embreagens cônicas - apelidado de ‘carro do fazendeiro’ por sua simplicidade rural. Nos anos 1920, a Licorne diversificou: no Salão de 1924, quatro modelos médios de quatro cilindros (de 1.390 cc a 2.292 cc) custavam de 20.500 a 38.000 francos, em carrocerias torpedo. A marca entrou no mundo dos utilitários com a pick-up ‘Normande’, uma van de estrutura de madeira que influenciou concorrentes. Em 1927, a fábrica migrou para Courbevoie, aliando-se à Citroën para componentes, o que reduziu custos mas a tornou dependente. Modelos como o 5 CV (900 cc, sucesso de vendas) e o 9/12 CV (1.691 cc, 22 cv) apelavam a urbanos e rurais pela economia e manutenção fácil.
As competições foram o elixir da Licorne. Waldemar Lestienne e pilotos como Joseph Collomb e Michel Doré colecionaram troféus: vitória na categoria 1.5 L nas 24 Horas de Le Mans de 1925 com Balart e Doutrebente; primeiro lugar no Rallye d’Europe de 1931; e 8º no GP de Mônaco de 1929. No entanto, tragédias pontuaram a história, como a morte de Maurice Fournier no GP da França de 1911. Os anos 1930 trouxeram desafios: a Depressão e a transição para carrocerias de aço integral elevaram custos. A Licorne adaptou-se comprando chassis do Citroën 11 Légère para os 8 CV e 11 CV em 1936, e lançou o Rivoli em 1937 - um híbrido com corpo Citroën, mas tração traseira e motor próprio de 1.450 cc. A produção caiu de 1.972 unidades em 1928 para 688 em 1938, refletindo a dominação de gigantes como Renault e Citroën.
A Segunda Guerra Mundial foi devastadora: a fábrica caiu sob controle alemão, produzindo veículos militares para a Wehrmacht e, em 1941-42, carros elétricos com baterias Mildé-Kriéger, de 90 km de autonomia a 40 km/h. Robert Lestienne, irmão de Waldemar e diretor nos anos 1930, foi executado pelos nazistas em 1944 no Bois de Boulogival - um golpe que abalou a liderança. No pós-guerra, o Plano Pons, que reestruturou a indústria francesa priorizando luxo e esportes, excluiu a Licorne, considerada ‘pequena demais’. A Citroën, parceira relutante, cortou o fornecimento de motores, vendo na Licorne um rival ‘brilhante demais’. No Salão de Paris de 1947, exibiu-se o Type 164 LR, um sedan de 1.450 cc a 90 km/h, e um cabriolet derivado do Type 415 de 1939, mas sem produção em série. Pequenas quantidades saíram até 1949, quando a fábrica foi vendida à Berliet. Registros apontam 33.962 carros produzidos de 1901 a 1949, mais de 200 modelos variados, incluindo 6.000 do 5 CV.
Hoje, relíquias da Licorne pontuam museus como o de Reims-Champagne, evocando uma era de engenhosidade artesanal. Corre La Licorne, como seu emblema unicórnio, foi mítica em sua raridade e endurance: uma underdog que desafiou gigantes, inovou com parcerias ousadas e deixou um legado de mais de 48 anos na efervescente tapeçaria automotiva francesa. Em um século de fusões e elétricos, sua história sussurra que a verdadeira magia reside na persistência cotidiana.