Duryea: Os irmãos que ajudaram a criar a indústria automobilística americana
Quando se fala nos pioneiros da indústria automobilística americana, nomes como Ford, Olds ou Cadillac costumam surgir imediatamente. No entanto, antes de todos eles existiu uma pequena empresa fundada por dois irmãos visionários que ajudou a transformar o automóvel de experimento mecânico em produto comercial. Essa empresa foi a Duryea Motor Wagon Company, e sua história ocupa um lugar fundamental no nascimento do automóvel nos Estados Unidos.
A origem da Duryea remonta aos irmãos Charles Edgar Duryea e J. Frank Duryea, nascidos em Illinois e inicialmente ligados ao ramo das bicicletas, um setor que, no final do século XIX, funcionava como verdadeiro laboratório para muitos futuros fabricantes de automóveis. Charles possuía espírito empreendedor e grande interesse por mecânica, enquanto Frank demonstrava enorme habilidade prática na construção e desenvolvimento de máquinas. Essa combinação acabaria se revelando decisiva para a história da mobilidade americana.
No início da década de 1890, os irmãos passaram a estudar os avanços europeus relacionados aos veículos movidos por motores de combustão interna. Inspirados especialmente pelos automóveis criados por Karl Benz na Alemanha, decidiram construir seu próprio veículo nos Estados Unidos. Trabalhando em Springfield, Massachusetts, adquiriram uma antiga carruagem puxada por cavalos e nela instalaram um motor monocilíndrico a gasolina de aproximadamente 4 cv de potência. O resultado foi o Duryea Motor Wagon, colocado em testes nas ruas da cidade em setembro de 1893. Muitos historiadores o consideram o primeiro automóvel americano movido a gasolina a alcançar sucesso prático e operacional.
O veículo era extremamente simples pelos padrões modernos. Utilizava transmissão por fricção, carburador rudimentar, ignição de baixa tensão e uma estrutura derivada diretamente de uma carruagem convencional. Ainda assim, representava um enorme avanço tecnológico para uma época em que os automóveis eram praticamente desconhecidos do público americano.
Os irmãos continuaram aperfeiçoando seu projeto durante os anos seguintes. Em 1895 construíram uma versão mais desenvolvida do automóvel e decidiram colocá-la à prova em uma competição que entraria para a história: a corrida Chicago Times-Herald, considerada a primeira corrida automobilística dos Estados Unidos. Realizada sob neve e condições extremamente difíceis, a prova percorreu cerca de 87 quilômetros entre Chicago e Evanston. Frank Duryea assumiu o volante e conquistou a vitória, tornando-se o vencedor da primeira corrida automobilística americana. O feito atraiu enorme atenção da imprensa e ajudou a convencer o público de que o automóvel possuía um futuro promissor.
O sucesso da corrida gerou uma onda de interesse pelos veículos dos irmãos. Aproveitando o momento, Charles e Frank fundaram oficialmente a Duryea Motor Wagon Company em 1895. No ano seguinte, a empresa iniciou a produção comercial de seus automóveis, tornando-se o primeiro fabricante dos Estados Unidos a construir e vender automóveis movidos a gasolina em série, ainda que de forma artesanal. Em 1896 foram produzidos treze exemplares praticamente idênticos, algo revolucionário para uma época em que a maioria dos veículos era construída individualmente como protótipos únicos.
Esses treze veículos ocupam uma posição histórica especial: os primeiros dez exemplares são frequentemente considerados os primeiros automóveis produzidos e vendidos comercialmente nos Estados Unidos. Em outras palavras, a Duryea ajudou não apenas a criar automóveis, mas também a criar a própria indústria automobilística americana.
A notoriedade da marca continuou crescendo graças às competições. Os automóveis Duryea venceram diversas corridas e participaram até mesmo do famoso percurso Londres-Brighton, na Inglaterra, demonstrando que os fabricantes americanos já eram capazes de competir com os europeus. Na época, vencer corridas era uma das formas mais eficazes de publicidade, e a empresa soube explorar bem essa estratégia.
Apesar da fama, a trajetória da empresa não foi simples. Divergências entre Charles e Frank sobre investimentos e expansão acabaram provocando o afastamento dos irmãos no final da década de 1890. Enquanto Frank seguiria carreira na sofisticada Stevens-Duryea, Charles tentaria criar novas empresas e desenvolver veículos mais acessíveis para o público americano. Sem a união que havia impulsionado os primeiros sucessos, a Duryea perdeu força gradualmente.
Charles ainda desenvolveria projetos inovadores nos anos seguintes, incluindo o curioso Duryea Buggyaut e o econômico Duryea GEM, concebido como uma espécie de híbrido entre automóvel e motocicleta. Entretanto, nenhum deles alcançou o impacto dos primeiros Duryea produzidos em Springfield. As dificuldades financeiras e a crescente concorrência de fabricantes maiores acabaram encerrando definitivamente as atividades automobilísticas ligadas ao nome Duryea em 1917.
Hoje, a importância histórica da Duryea é imensa. Embora a marca tenha desaparecido muito antes de Ford, Chevrolet ou Cadillac dominarem as estradas americanas, ela ajudou a estabelecer conceitos fundamentais da indústria: produção em pequena série, comercialização regular de automóveis, publicidade baseada em competições e aperfeiçoamento contínuo da tecnologia de combustão interna.
Como curiosidade final, um automóvel Duryea esteve envolvido em outro episódio histórico bastante peculiar. Em 1896, um condutor chamado Henry Wells atropelou um ciclista em New York com seu Duryea recém-adquirido. O ciclista sofreu uma fratura na perna e o condutor passou uma noite preso. O incidente ficou registrado como o primeiro acidente automobilístico documentado da história dos Estados Unidos - mais uma das muitas ‘primeiras vezes’ associadas ao nome Duryea.