ECCENTRICA CARS - A história de uma paixão que devolveu o Lamborghini Diablo à estrada
A história da Eccentrica Cars começa muito antes de a empresa existir. Ela nasceu da paixão de Emanuel Colombini, empresário italiano, presidente do Colombini Group, colecionador de automóveis e piloto amador, pelo Lamborghini Diablo. Ainda criança, Colombini se impressionou com a imagem de um Diablo vermelho na capa da revista italiana Quattroruote. Décadas depois, já como colecionador, voltou a se aproximar do modelo e adquiriu um Diablo de primeira série e posteriormente um Diablo GT. Foi essa experiência que o levou a imaginar algo aparentemente simples, mas tecnicamente bastante ambicioso: como seria tornar o Diablo mais utilizável, mais preciso e mais confiável sem eliminar justamente aquilo que fazia dele um dos grandes supercarros dos anos 1990?
A resposta começou a tomar forma quando Colombini decidiu transformar sua paixão pessoal em um projeto empresarial. Assim surgiu a Eccentrica Cars, com sede na República de San Marino, dedicada inicialmente à criação de um restomod baseado no Diablo. A proposta não era restaurar o Lamborghini à condição original nem simplesmente modernizá-lo com componentes contemporâneos. A intenção era preservar sua personalidade mecânica e visual, mas rever praticamente todos os elementos necessários para transformá-lo em um superesportivo mais adequado aos padrões atuais. Design, engenharia, acabamento artesanal e personalização passaram a formar os quatro pilares da nova empresa.
O primeiro protótipo foi apresentado em julho de 2023, marcando oficialmente o nascimento público da Eccentrica. O projeto recebeu o nome de Eccentrica V12 e rapidamente chamou atenção justamente pela maneira como reinterpretava o Diablo sem tentar escondê-lo. O desenho original continuava reconhecível, mas a carroceria passava a utilizar amplamente fibra de carbono, enquanto novos elementos aerodinâmicos, rodas, iluminação e detalhes de acabamento atualizavam a aparência. O trabalho de design foi conduzido pelo estúdio milanês Borromeo De Silva, parceiro responsável por traduzir a essência do Diablo para uma linguagem contemporânea.
A parte mecânica recebeu atenção ainda maior. O V12 naturalmente aspirado de 5.7 litros, derivado do motor dos primeiros Diablo, foi profundamente revisado e passou a desenvolver 550 cv e 600 Nm. Novos comandos de válvulas, corpos de borboleta eletrônicos, gerenciamento eletrônico recalibrado e outras modificações melhoraram a resposta do motor sem recorrer à sobrealimentação. A transmissão original também deu lugar a uma caixa manual de 6 velocidades especialmente desenvolvida, com relações revistas e comando de ré elétrico. A filosofia era deliberadamente diferente da tendência contemporânea de transformar supercarros em máquinas cada vez mais dependentes de eletrônica: a Eccentrica queria conservar uma experiência essencialmente analógica.
Para garantir que a potência adicional pudesse ser aproveitada, o chassi recebeu reforços estruturais e componentes compostos, enquanto a suspensão passou a utilizar arquitetura de duplo braço transversal com amortecedores semiativos. O sistema de direção foi modernizado, e os freios desenvolvidos em parceria com a Brembo trabalham com rodas forjadas leves e pneus de alto desempenho. O resultado é um automóvel que mantém a brutalidade característica do Diablo, mas procura oferecer respostas mais previsíveis e maior precisão. A velocidade máxima estimada chega a 335 km/h.
A cabine segue a mesma filosofia. Em vez de simplesmente reproduzir o interior dos anos 1990, a Eccentrica procurou conservar sua atmosfera e substituir materiais e soluções considerados ultrapassados. Couro, Alcantara, alumínio usinado e fibra de carbono convivem com instrumentos digitais, sistema multimídia desenvolvido sob medida e sistema de áudio Marantz. Cada automóvel é configurado individualmente, permitindo que o cliente escolha materiais, cores e acabamentos. Dessa maneira, cada Eccentrica V12 se torna uma peça única, embora todas compartilhem a mesma base técnica.
O momento decisivo para o jovem fabricante aconteceu em agosto de 2024, quando o Eccentrica V12 totalmente dirigível foi apresentado mundialmente no The Quail, A Motorsports Gathering, durante a Monterey Car Week. O automóvel também foi exibido no Concept Lawn do Pebble Beach Concours d’Elegance, colocando imediatamente a pequena empresa de San Marino diante de um público formado por colecionadores, especialistas e alguns dos mais importantes nomes da indústria de automóveis de alta performance.
Outro nome importante nessa trajetória é Maurizio Reggiani, engenheiro que construiu grande parte de sua carreira na Lamborghini, chegando a ocupar os cargos de diretor de tecnologia e vice-presidente de Motorsport. Reggiani tornou-se consultor técnico da Eccentrica e ajudou a transformar a ideia de Colombini em um automóvel tecnicamente coerente. Sua participação tem também um significado simbólico: alguém que trabalhou diretamente com a evolução dos Lamborghini de alto desempenho passou a ajudar a reinterpretar justamente um dos modelos que marcaram aquela época.
Em 2025, o projeto entrou em uma nova fase. A Eccentrica iniciou a produção do V12 e levou o automóvel a eventos internacionais, incluindo o Goodwood Festival of Speed, onde o modelo participou do famoso Hillclimb. A empresa estabeleceu uma produção extremamente limitada de apenas 19 unidades, todas construídas sob encomenda. Cada carro exige a utilização de um Diablo doador e recebe um extenso processo de desmontagem, engenharia, fabricação e montagem, fazendo com que a Eccentrica esteja muito mais próxima de uma boutique de engenharia automotiva do que de um fabricante convencional.
E a história continua em 2026. Durante a Monterey Car Week, a Eccentrica apresentou o V12 Roadster, versão sem teto do seu restomod, novamente limitada a 19 exemplares. O modelo conserva o V12 5.7 litros naturalmente aspirado de 550 cv e a transmissão manual, mas acrescenta uma carroceria aberta com estrutura reforçada, painéis de fibra de carbono e novas soluções aerodinâmicas. A apresentação no The Quail mostra que a empresa já começa a transformar seu primeiro projeto em uma verdadeira família de interpretações do Diablo.
Assim, a história da Eccentrica Cars é, acima de tudo, a história de uma obsessão pessoal que encontrou engenharia, recursos e parceiros capazes de transformá-la em realidade. Emanuel Colombini não quis simplesmente possuir novamente o Diablo de sua infância; quis descobrir até onde aquele automóvel poderia chegar se fosse refeito com as ferramentas e os conhecimentos disponíveis décadas depois de seu nascimento. O resultado é um fabricante de escala diminuta, mas com uma proposta muito clara: preservar a emoção dos grandes supercarros analógicos dos anos 1990, corrigir suas limitações e transformá-los em máquinas contemporâneas sem apagar sua alma original. E, ao escolher o Diablo como primeiro capítulo dessa história, a Eccentrica encontrou justamente um dos automóveis mais emblemáticos para demonstrar que, às vezes, o futuro do automóvel também pode estar em olhar novamente para o passado.