A Geely, ou Zhejiang Geely Holding Group, é um dos maiores conglomerados automotivos da China e um símbolo do impressionante crescimento industrial do país nas últimas décadas. Fundada em 1986 por Li Shufu em Taizhou, na província de Zhejiang, a empresa começou de forma modesta como uma pequena fábrica de peças para refrigeradores, atendendo à demanda crescente por eletrodomésticos em uma China emergente.
Li Shufu, um visionário e hoje bilionário, via potencial além do setor de refrigeração e, em 1994, diversificou o negócio para a produção de motocicletas, capitalizando o boom de mobilidade urbana na Ásia.
O grande salto veio em 1997, quando a Geely ingressou no setor automotivo, tornando-se o primeiro fabricante de carros privado e independente da China - um feito notável em um mercado dominado por empresas estatais e joint-ventures estrangeiras.
No entanto, o caminho não foi fácil: a empresa só obteve a licença nacional de produção em novembro de 2001, após anos de desenvolvimento artesanal. Seu primeiro protótipo, conhecido como ‘Number 01’, era uma ousada mistura de design inspirado no Mercedes-Benz E Class com mecânica baseada no antigo Audi 100, refletindo a ambição de Li Shufu de criar um carro de luxo chinês acessível.
Em 1998, saiu da linha de montagem o primeiro modelo de produção em escala: o Haoqing SRV, um hatchback compacto com motor de 1.0 litro e 53 cv, derivado do Daihatsu Charade.
Esse veículo marcou a entrada da Geely no competitivo mercado chinês, onde inicialmente enfrentou críticas por designs copiados e qualidade questionável, mas rapidamente evoluiu com foco em inovação e custos baixos.
Em 2003, uma reestruturação transformou a Geely em Zhejiang Geely Holding (ZGH), uma holding controlada majoritariamente por Li Shufu, que facilitou expansões e investimentos.
A década de 2000 foi de consolidação: em 2005, a empresa adquiriu uma participação na Manganese Bronze Holdings, controlando a produção dos icônicos táxis pretos de Londres, o que a levou a fundar a London Electric Vehicle Company (LEVC) anos depois, especializada em veículos elétricos comerciais.
A Geely também estreou em salões internacionais, como o de Frankfurt em 2005 e Detroit em 2006, ganhando reconhecimento como a primeira marca chinesa independente a participar desses eventos.
O marco definitivo veio em 2010, quando a Geely adquiriu a Volvo Cars da Ford por 1.8 bilhões de dólares - uma transação que chocou o mundo e simbolizou a ascensão da China no mundo automotivo global.
Sob a gestão chinesa, a Volvo não só se recuperou financeiramente, mas se reinventou com foco em segurança e eletrificação, beneficiando-se das plataformas modulares compartilhadas com a Geely, como a CMA (Compact Modular Architecture).
Essa aquisição abriu portas para uma estratégia agressiva de fusões e aquisições: em 2017, a Geely comprou a Lotus (fabricante britânico de superesportivos); em 2018, lançou a Polestar como marca de performance elétrica da Volvo; e em 2021, adquiriu a Zeekr, focada em EVs premium.
Outras marcas no portfólio incluem Lynk & Co (joint-venture com Volvo), Proton (Malásia), Smart (com Mercedes-Benz) e Farizon (veículos comerciais).
Hoje, a Geely é um colosso: em 2023, figurou na 225ª posição da Fortune Global 500, com receitas acima de 55 bilhões dólares, e vendeu mais de 3.3 milhões de veículos em 2024, dos quais cerca de 888 mil foram de nova energia (elétricos e híbridos).
A empresa investe pesado em P&D, com centros em Hangzhou, Gotemburgo e Milão, e é pioneira em mobilidade sustentável - de táxis elétricos londrinos a carros voadores via Terrafugia.
No Brasil, a Geely teve uma breve presença entre 2014 e 2016 via importação, mas planeja um retorno forte: em 2025, firmou parceria com a Renault para produzir EVs em São José dos Pinhais (PR), e marcas como Zeekr, Polestar e Riddara já iniciam pré-vendas.
A trajetória da Geely exemplifica a resiliência e a ambição chinesa: de uma startup de geladeiras a dona de ícones globais como Volvo e Lotus, Li Shufu transformou a ‘Geely’ - que significa ‘auspicioso’ em mandarim - em sinônimo de inovação automotiva. Com foco em eletrificação e expansão global, a empresa está posicionada para liderar a transição para a mobilidade do futuro.