No vibrante cenário automotivo italiano do século XX, onde marcas como Ferrari, Maserati e Lamborghini definiam o conceito de esportividade e luxo, a Iso Autoveicoli S.p.A. - também conhecida como Iso Rivolta - destacou-se como uma força singular. Fundada por Renzo Rivolta em 1939, inicialmente como uma empresa de equipamentos de refrigeração, a Iso transformou-se em uma montadora de automóveis audaciosa, conhecida por combinar o design sofisticado italiano com a potência bruta de motores americanos. Embora sua trajetória automotiva tenha sido breve, entre os anos 1950 e 1974, a Iso deixou um legado marcante com modelos icônicos como o Isetta, o Grifo e o Rivolta IR 300, que continuam a fascinar colecionadores e entusiastas quase meio século após o fim da empresa.
Origens: De Refrigeradores a Microcarros
A história da Iso começou longe das pistas, com Renzo Rivolta, um engenheiro e industrial genovês, fundando a Isothermos em 1939 para fabricar aquecedores e refrigeradores. Após a Segunda Guerra Mundial, com a Itália em reconstrução, Rivolta viu uma oportunidade no setor de transportes, inicialmente focando em motocicletas e scooters sob a marca Iso. Em 1952, a empresa lançou o Isocarro, um triciclo motorizado para transporte de cargas, mas foi o Isetta, introduzido em 1953, que mudou o destino da companhia. Esse microcarro, apelidado de ‘bubble car’ por sua forma oval e compacta, era movido por um motor monocilíndrico de 236 cc e 9.5 cv, com uma porta frontal única. Projetado para mobilidade urbana acessível, o Isetta tornou-se um sucesso instantâneo, com mais de 20 mil unidades vendidas na Itália.
O verdadeiro salto global veio em 1954, quando a BMW adquiriu a licença para produzir o Isetta na Alemanha. Com um motor de 250 cc e 13 cv, a versão BMW Isetta vendeu cerca de 160 mil unidades, salvando a montadora alemã da falência e consolidando a Iso como uma marca inovadora. A produção licenciada também ocorreu no Brasil (pela Romi-Isetta) e na França, com mais de 60 mil unidades fabricadas globalmente até o fim da década de 1950. O sucesso financeiro do Isetta permitiu que Rivolta redirecionasse a empresa para um sonho mais ambicioso: criar automóveis de luxo que combinassem estilo italiano com confiabilidade mecânica.
A Era dos Grand Tourers
Na década de 1960, Renzo Rivolta voltou sua atenção para o mercado de carros esportivos de alto desempenho, inspirado por sua insatisfação com os GTs europeus, frequentemente caros e pouco confiáveis. Em 1962, a Iso lançou o Rivolta IR 300, um coupé 2/2 projetado por Giorgetto Giugiaro, então na Bertone, com um motor Chevrolet V8 327 de 5.4 litros e 300 cv. Construído sobre um chassi de aço prensado, com suspensão independente e freios a disco, o IR 300 era um grand tourer confortável e robusto, capaz de atingir 215 km/h. Vendido por cerca de 8.000 dólares, era significativamente mais acessível que uma Ferrari F250 GTO, atraindo compradores na Europa e nos EUA.
O sucesso do IR 300 abriu caminho para o carro mais icônico da Iso: o Grifo. Lançado em 1963 no Salão de Turin como protótipo A3/L (Lusso), o Grifo foi desenhado por Giugiaro e projetado pelo ex-Ferrari Giotto Bizzarrini, combinando linhas elegantes com o mesmo V8 Chevrolet do IR 300. A produção começou em 1965, com o Grifo GL para uso em estrada e o A3/C para competição, embora disputas com Bizzarrini levaram à separação das linhas. O Grifo, com versões como o Targa e o IR-9 ‘Can Am’ de 7.4 litros (435 cv) em 1971, tornou-se o símbolo máximo da Iso, com apenas 412 unidades produzidas até 1974. Outros modelos, como o Fidia (um sedan de quatro portas lançado em 1967) e o Lele (um coupé 2/2 de 1969), complementaram a linha, mas nunca alcançaram a mesma aura do Grifo.
Desafios e Declínio
Apesar do sucesso inicial, a Iso enfrentou dificuldades crescentes na década de 1970. A dependência de motores Chevrolet elevava os custos de importação, e, em 1972, desentendimentos com a General Motors levaram a Iso a adotar motores Ford, como o Boss 351 de 5.8 litros no Grifo IR-8. A crise do petróleo de 1973 foi devastadora, com o aumento dos preços do combustível reduzindo a demanda por carros de alta cilindrada. As vendas caíram drasticamente - o Grifo, por exemplo, teve apenas 78 unidades produzidas entre 1972 e 1974. A fábrica de Bresso, que empregava cerca de 200 trabalhadores, entrou em colapso financeiro, e Renzo Rivolta faleceu em 1966, deixando a empresa sob o comando de seu filho, Piero, que não conseguiu reverter o declínio. Em dezembro de 1974, a Iso Autoveicoli faliu, encerrando a produção após cerca de 1.700 carros fabricados, incluindo 792 Rivolta IR 300, 412 Grifos, 192 Fidias e 413 Leles.
Tentativas de Revival e Legado
Após a falência, Piero Rivolta tentou reviver a marca nos EUA, onde se estabeleceu em 1973. Uma parceria com a ORSA resultou no Iso Spring, um buggy com motor Volkswagen de 1.6 litros, mas o projeto não vingou. Nos anos 1990, a Iso explorou novos conceitos, incluindo um revival do Grifo, mas nenhum chegou à produção em massa. Em 2017, a Zagato anunciou uma parceria com a Iso Rivolta para lançar o GTZ, um coupé inspirado no Grifo com motor Corvette Z06 de 660 cv, mas apenas 19 unidades foram planejadas, mantendo o caráter exclusivo da marca.
Hoje, a Iso Autoveicoli é reverenciada por colecionadores, com modelos como o Grifo de 1971 alcançando preços superiores a 500 mil dólares em leilões, segundo a RM Sotheby’s. O Isetta permanece um ícone de design, exibido em museus como o MoMA, enquanto o Grifo é celebrado em eventos como o Concorso d’Eleganza Villa d’Este. Em 2025, com o mercado automotivo dominado por elétricos, a história da Iso nos lembra uma era de ousadia, quando a Itália sonhou grande, fundindo arte, engenharia e a potência bruta americana em carros que ainda aceleram o coração dos apaixonados por clássicos.