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MOSLER

Logo da MOSLER

Falar da Mosler Automotive é mergulhar em uma das histórias mais curiosas e independentes do universo dos supercarros. Enquanto gigantes como Ferrari, McLaren e Porsche se apoiavam em décadas de tradição e equipes com centenas de engenheiros, a Mosler surgiu da visão obstinada de um homem só - Warren Mosler, um economista e entusiasta de corridas que acreditava que a eficiência e a leveza podiam vencer até mesmo a potência bruta. O resultado foi uma marca singular, americana até o último parafuso, que produziu alguns dos supercarros mais extremos e radicais dos anos 1990 e 2000.

Mosler Automotive: o engenho americano na busca pela velocidade pura

A história da Mosler Automotive começa oficialmente em 1985, quando Warren Mosler fundou a empresa Consulier Industries em Riviera Beach, na Flórida. Mosler não era um engenheiro automotivo tradicional, mas um apaixonado por desempenho e aerodinâmica e, acima de tudo, um pensador pragmático. Sua filosofia era simples: “menos peso é mais desempenho”. Enquanto o mundo idolatrava cavalos de potência, ele se concentrava em algo mais sutil - a relação peso-potência.

O primeiro capítulo: Consulier GTP

O primeiro automóvel de Warren Mosler, o Consulier GTP, lançado em 1988, foi uma verdadeira anomalia no cenário americano. Com carroceria e monocoque totalmente feitos em fibra de vidro e Kevlar, o GTP pesava menos de 1.000 kg e era movido por um motor Chrysler Turbo II de 2.2 litros, com cerca de 190 cv.

Esses números pareciam modestos, mas o desempenho era impressionante: 0 a 100 km/h em cerca de 5 segundos, e uma velocidade final superior a 225 km/h - cifras que rivalizavam com supercarros europeus muito mais caros.

Nas pistas, o GTP se mostrou quase invencível. Entre 1989 e 1991, dominou competições como o IMSA Supercar Championship, a ponto de ser banido por ‘excesso de desempenho’. O episódio deu notoriedade à marca e confirmou o talento de Mosler como inovador. Era o começo de uma reputação: a de construir carros tão eficazes que eram considerados ‘injustos’.

De Consulier a Mosler Automotive

Em 1993, Warren Mosler rebatizou sua empresa como Mosler Automotive, dando início a uma nova fase, mais madura e ambiciosa. A sede continuava na Flórida, mas os objetivos eram globais: criar um verdadeiro supercarro americano de alto desempenho, que pudesse desafiar as marcas europeias nas pistas e nas ruas.

O primeiro fruto dessa nova era foi o Mosler Intruder, seguido pelo Mosler Raptor - ambos derivados do Consulier, mas com visual mais refinado e motores V8 da Corvette. Esses modelos serviram de base para o projeto mais emblemático da marca: o Mosler MT900.

O Mosler MT900: o supercarro americano purista

Lançado em 2001, o Mosler MT900 foi o auge da visão de Warren Mosler. Projetado com a ajuda do renomado engenheiro Rod Trenne, o carro era construído em fibra de carbono e pesava apenas 1.170 kg - cerca de 300 kg a menos que um Ferrari F360 Modena.

Seu nome vinha de ‘Mosler Twin 900’, referência à meta de alcançar 900 kg de peso e 900 cv, embora o modelo inicial usasse um motor V8 LS1 de 5.7 litros da Chevrolet, com 350 cv. Mesmo assim, o desempenho era espantoso: 0 a 100 km/h em 3.5 segundos e uma velocidade máxima de cerca de 240 km/h.

A versão MT900S, lançada em 2003, trouxe ainda mais potência e refinamento, com o motor LS6 de 435 cv. E quando o modelo evoluiu para o MT900S Photon, o peso caiu para apenas 861 kg, um número quase inacreditável para um carro legalizado para as ruas.

O resultado era uma máquina visceral e analógica, com desempenho tão puro que o piloto e o carro pareciam fundir-se em um único organismo. Não havia controles eletrônicos, nem luxo - apenas mecânica bruta e equilíbrio perfeito.

Nas pistas, o monstro americano

A Mosler Automotive também deixou uma marca expressiva nas competições. Versões de corrida do MT900 - como o MT900R - competiram em provas de resistência como a 24 Horas de Daytona, a 24 Horas de Britcar, a FIA GT Championship e a Britcar 24h.

Em 2003, o MT900R conquistou vitórias notáveis em circuitos europeus, superando Ferrari, Porsche e Marcos. Em 2007 e 2008, o carro venceu a Britcar 24 Hours, consolidando sua fama de carro quase indestrutível.

Seu baixo peso e aerodinâmica refinada permitiam excelente eficiência em curvas e frenagens, fazendo dele um campeão da resistência e da consistência - algo raro entre os supercarros independentes.

Um carro de nicho, mas de alma pura

Apesar do sucesso entre pilotos e entusiastas, a Mosler nunca foi uma marca de grandes volumes. A produção total do MT900, em todas as suas versões (de rua e de pista), não passou de 30 unidades. Cada carro era montado quase artesanalmente na Flórida, com atenção obsessiva aos detalhes e foco no desempenho absoluto.

Essa exclusividade acabou se tornando parte do mito: possuir um Mosler era como ter uma peça única de engenharia americana - um carro projetado para vencer, não para desfilar.

O fim de uma era

Em 2013, após quase três décadas de atividade, a Mosler Automotive encerrou suas operações. A combinação de custos elevados, mercado restrito e a morte de seu espírito fundador - o idealismo de Warren Mosler, que se voltou novamente à economia - selaram o destino da empresa.

No entanto, seus carros continuaram a correr e a ser reverenciados como verdadeiros puristas da velocidade. Em uma época cada vez mais dominada por assistências eletrônicas, o MT900 permanece como um lembrete do que era dirigir com as mãos firmes e o coração acelerado.

Pouca gente sabe, mas o Mosler MT900S Photon ainda é usado como referência de performance por engenheiros e pilotos de teste. Seu coeficiente de arrasto (Cd 0.23) é um dos mais baixos já alcançados por um supercarro de motor central, e sua relação peso/potência supera a de muitos hipercarros modernos.

A Mosler Automotive foi o exemplo perfeito do sonho americano aplicado à velocidade: um homem, uma ideia e uma oficina transformaram-se em um nome respeitado nas pistas do mundo. Sem publicidade, sem luxo, sem herança - apenas engenhosidade e determinação.

O Mosler MT900 e seus predecessores deixaram um legado de autenticidade e audácia, lembrando que a verdadeira grandeza de um supercarro não está na marca, mas no coração de quem o constrói.