Sears, Roebuck and Co. e o automóvel: quando a maior rede de varejo dos Estados Unidos vendeu carros por catálogo e em suas lojas
Quando se fala na Sears, Roebuck and Co., a imagem que normalmente vem à mente é a de uma das maiores redes de lojas de departamento da história dos Estados Unidos. No entanto, durante boa parte do século XX, a empresa também desempenhou um papel surpreendente no mercado automobilístico, atuando como fabricante indireto, distribuidor e varejista de automóveis, utilizando sua vasta rede de catálogos e lojas para levar veículos a consumidores em todo o país.
O início: o Sears Motor Buggy
A entrada da Sears no setor automobilístico ocorreu em 1908, quando a empresa apresentou o Sears Motor Buggy. O projeto tinha como objetivo oferecer uma alternativa acessível aos agricultores e moradores de áreas rurais que ainda utilizavam carruagens puxadas por cavalos.
O Sears Motor Buggy era, na prática, uma evolução motorizada da tradicional charrete rural. Equipado com um motor monocilíndrico refrigerado a ar de aproximadamente 10 cv e transmissão por corrente, podia transportar dois passageiros e atingir velocidades próximas de 25 km/h. O veículo era vendido por catálogo e enviado desmontado ou parcialmente montado por trem, sendo finalizado pelo comprador ou por um mecânico local.
Embora inovador para a época, o Motor Buggy enfrentou dificuldades diante da rápida evolução dos automóveis convencionais. Com a chegada de modelos como o Ford Model T, que ofereciam maior conforto e desempenho a preços cada vez mais competitivos, a produção do Motor Buggy foi encerrada em 1912.
A estratégia do catálogo e das marcas próprias
Um dos grandes diferenciais da Sears era sua extraordinária rede de distribuição. Por meio de seu famoso catálogo, consumidores em praticamente qualquer região dos Estados Unidos podiam encomendar produtos de todos os tipos, incluindo automóveis e peças mecânicas.
Ao longo das décadas seguintes, a empresa comercializou veículos sob diferentes estratégias:
- venda direta de modelos produzidos por fabricantes parceiros;
- comercialização de componentes automotivos e kits de manutenção;
- oferta de pneus, baterias, ferramentas e acessórios sob marcas próprias;
- financiamento e serviços relacionados ao uso do automóvel.
A Sears percebeu que, muitas vezes, era mais lucrativo aproveitar sua força comercial do que investir na fabricação de veículos completos.
O retorno ao mercado automobilístico: os Allstate
Após a Segunda Guerra Mundial, a empresa voltou a vender automóveis completos por meio de uma parceria com o fabricante americano Kaiser-Frazer.
Entre 1952 e 1953, surgiram os modelos comercializados sob a marca Allstate, nome já conhecido dos clientes da Sears por identificar diversos produtos da empresa.
O Allstate era essencialmente uma versão rebatizada do compacto Henry J, mas recebia detalhes exclusivos de acabamento, grade dianteira diferenciada, emblemas próprios e equipamentos específicos para a clientela da rede varejista.
Os automóveis eram vendidos diretamente nas lojas Sears participantes, uma abordagem bastante incomum para o período.
Por que a iniciativa fracassou?
Apesar da enorme reputação da Sears como varejista, a comercialização de automóveis enfrentou diversos obstáculos.
Em primeiro lugar, muitos consumidores preferiam comprar carros em concessionárias especializadas, que ofereciam demonstrações, assistência técnica dedicada e uma relação mais próxima com o fabricante.
Além disso, a rede tradicional de concessionários via com desconfiança a entrada de um gigante do varejo no mercado automotivo. O próprio Henry J já enfrentava dificuldades comerciais, limitando ainda mais o potencial do Allstate.
Como resultado, foram vendidos apenas cerca de 2.300 exemplares dos Allstate antes que a Sears encerrasse o projeto em 1953.
A Sears como fornecedora do automobilismo americano
Mesmo abandonando a venda direta de veículos, a Sears permaneceu profundamente ligada ao universo automotivo durante décadas.
Milhões de americanos equiparam seus carros com produtos vendidos pela empresa, incluindo:
- pneus Allstate;
- baterias DieHard, que se tornaram referência em durabilidade;
- amortecedores, velas e peças de reposição;
- ferramentas para oficinas domésticas da marca Craftsman;
- macacos hidráulicos, compressores e equipamentos de manutenção.
Dessa forma, embora tenha produzido e vendido relativamente poucos automóveis completos, a Sears exerceu enorme influência sobre a cultura automobilística dos Estados Unidos.
Legado histórico
Hoje, os automóveis comercializados pela Sears estão entre os mais raros do mercado de veículos antigos. O Sears Motor Buggy é considerado um dos pioneiros da motorização rural americana, enquanto os modelos Allstate representam uma curiosa experiência de venda de carros por uma grande rede varejista.
Esses veículos simbolizam uma época em que empresas de catálogo buscavam expandir seus negócios para praticamente todos os setores da economia, demonstrando que o automóvel podia ser tratado não apenas como um produto industrial, mas também como um item de varejo de alcance nacional.
Curiosidade
Entre 1908 e 1912, a Sears chegou a anunciar que o Motor Buggy poderia substituir um cavalo de fazenda por uma fração do custo anual de alimentação e manutenção do animal. Décadas depois, repetiu sua ousadia ao vender automóveis Allstate em suas próprias lojas, tornando-se uma das pouquíssimas grandes redes varejistas americanas a comercializar carros novos diretamente ao consumidor em escala nacional. Embora ambas as iniciativas tenham sido de curta duração, elas permanecem como capítulos singulares da história do automóvel nos Estados Unidos.