Sheridan Motor Car Company: a ambiciosa marca americana que nasceu dentro da General Motors e desapareceu em pouco mais de um ano
Entre os inúmeros fabricantes que surgiram e desapareceram durante a efervescência da indústria automobilística norte-americana do início do século XX, poucas tiveram uma trajetória tão curiosa quanto a Sheridan Motor Car Company. Fundada em 1920 na cidade de Muncie, no estado de Indiana, a empresa nasceu de um projeto extremamente ambicioso liderado por William C. ‘Billy’ Durant, fundador da General Motors, mas acabou tornando-se uma das marcas mais efêmeras da história da indústria automotiva, encerrando suas atividades pouco mais de um ano depois de iniciar a produção.
A ideia surgiu quando D. A. Burke, então executivo da divisão Buick, propôs o desenvolvimento de uma linha completamente nova de automóveis que fosse concebida desde o início dentro da estrutura da General Motors, em vez de resultar da aquisição de um fabricante já existente. O objetivo era preencher lacunas na gama da corporação: um modelo de 4 cilindros ocuparia o espaço entre Chevrolet e Oakland, enquanto um sofisticado automóvel equipado com motor V8 ficaria posicionado entre Buick e Cadillac. Billy Durant aprovou imediatamente o projeto e determinou a compra da antiga fábrica da Inter-State Automobile Company, em Muncie, para servir como base da nova marca.
Essa decisão tornou a Sheridan historicamente relevante por um motivo especial: ela foi a primeira marca criada do zero pela própria General Motors, diferentemente das demais divisões da empresa, que haviam sido incorporadas por meio de aquisições. Para promover os novos veículos, a companhia recrutou uma celebridade nacional, o lendário piloto e herói da Primeira Guerra Mundial, Eddie Rickenbacker, cuja reputação ajudou a despertar grande interesse do público e da imprensa especializada. A expectativa era alcançar uma produção de até 300 automóveis por dia, demonstrando o elevado grau de confiança depositado no empreendimento.
Os automóveis Sheridan eram convencionais do ponto de vista técnico, privilegiando robustez e confiabilidade em vez de soluções revolucionárias. O principal modelo efetivamente produzido utilizava um motor de 4 cilindros fornecido pela divisão Northway da própria GM e era oferecido em diversas carrocerias, como touring, roadster, coupé e sedan. Paralelamente, chegou a ser desenvolvido um elegante protótipo equipado com um potente motor V8, destinado ao segmento de luxo, mas essa versão jamais entrou em produção regular. Estima-se que apenas cerca de 800 veículos Sheridan tenham sido construídos antes do encerramento da marca.
O destino da empresa mudou radicalmente quando Billy Durant perdeu, pela segunda e definitiva vez, o controle da General Motors no final de 1920. Sem seu principal patrocinador dentro da corporação, o projeto deixou de ser prioritário para a nova administração comandada por Alfred P. Sloan. Poucos meses depois, o próprio Durant adquiriu da GM os direitos sobre a Sheridan e sua fábrica em Muncie, planejando utilizá-la como base para sua recém-criada Durant Motors. Embora houvesse pedidos pendentes e o automóvel apresentasse qualidades técnicas reconhecidas, a produção da Sheridan foi gradualmente encerrada para abrir espaço aos novos modelos da empresa de Durant. Em setembro de 1921, a marca desaparecia definitivamente do mercado.
Hoje, a Sheridan Motor Car Company permanece como uma fascinante nota de rodapé na história do automóvel americano. Sua curta existência não impediu que deixasse um legado singular: foi a primeira tentativa da General Motors de criar uma marca inteiramente nova sob sua própria estrutura, um experimento interrompido mais por mudanças no comando corporativo do que por falhas de engenharia ou aceitação do produto. Os raríssimos exemplares sobreviventes são hoje peças altamente valorizadas por colecionadores e museus, simbolizando um momento em que uma mudança na liderança de uma gigante industrial foi suficiente para condenar ao esquecimento uma promissora fabricante antes mesmo que ela pudesse mostrar todo o seu potencial.
Embora tenha existido por apenas cerca de um ano, a Sheridan é frequentemente apontada pelos historiadores como uma das marcas mais obscuras já ligadas à General Motors. Se o projeto tivesse sobrevivido, poderia ter alterado significativamente a estratégia de posicionamento das marcas da GM na década de 1920 e talvez se tornado uma divisão permanente ao lado de Chevrolet, Buick, Cadillac e das demais integrantes do grupo.