SIMPLEX (CRANE-SIMPLEX): o fabricante americano que produziu alguns dos automóveis mais sofisticados de sua época
A dúvida sobre o nome é perfeitamente compreensível, porque a empresa foi conhecida de diferentes maneiras ao longo de sua existência. Historicamente, o nome mais correto para o fabricante é Simplex Automobile Company, embora os automóveis produzidos após 1915 tenham ficado amplamente conhecidos como Crane-Simplex, em razão da entrada do industrial Herbert L. Crane no controle da empresa. Por isso, é comum encontrar referências tanto a ‘Simplex’ quanto a ‘Crane-Simplex’, enquanto a forma ‘Simplex Crane’ aparece ocasionalmente em publicações e catálogos posteriores, mas é menos utilizada historicamente.
A história da marca começa em uma época fascinante da indústria automobilística americana. No início do século XX, os Estados Unidos possuíam centenas de fabricantes independentes, muitos deles competindo não pela produção em massa, mas pelo mercado de luxo. Antes de nomes como Cadillac, Lincoln ou Packard dominarem esse segmento, existiam diversas empresas especializadas em automóveis extremamente caros, exclusivos e tecnologicamente avançados. A Simplex era uma delas.
A empresa surgiu em New York em 1907, sucedendo a Smith & Mabley Manufacturing Company, que já comercializava automóveis de origem europeia. Seus fundadores tinham um objetivo ambicioso: criar automóveis americanos capazes de rivalizar com os melhores carros de luxo da Europa, especialmente os prestigiosos Mercedes alemães, que na época eram considerados referência mundial em desempenho e engenharia.
Desde o início, a Simplex adotou uma filosofia muito diferente daquela que mais tarde consagraria Henry Ford. Em vez de produzir veículos acessíveis em grande quantidade, a empresa dedicou-se à construção de máquinas sofisticadas, potentes e extremamente caras. Seus automóveis eram destinados a industriais, banqueiros, políticos e membros da alta sociedade americana.
O primeiro grande sucesso da marca foi o Simplex 50 HP, lançado em 1907. Para os padrões da época, tratava-se de uma máquina extraordinária. O carro utilizava um enorme motor de 6 cilindros e quase 10 litros de cilindrada, capaz de desenvolver cerca de 50 cv - um número impressionante quando muitos automóveis contemporâneos mal ultrapassavam 20 cv. Mais importante ainda, o modelo oferecia desempenho excepcional, podendo atingir velocidades superiores a 120 km/h, algo praticamente inacreditável para o período.
Visualmente, os primeiros Simplex eram típicos representantes da chamada Era do Latão (Brass Era). Radiadores verticais, faróis de acetileno, enormes rodas de madeira, para-lamas separados e carrocerias abertas dominavam o cenário. Mas por trás daquela aparência ainda rudimentar existia uma engenharia extremamente sofisticada.
A reputação da marca cresceu rapidamente graças às competições. Como acontecia com muitos fabricantes do início do século XX, as corridas funcionavam como uma poderosa ferramenta de marketing. Os carros da Simplex obtiveram excelentes resultados em provas de resistência e velocidade, demonstrando robustez mecânica e desempenho superior. Em uma época em que a confiabilidade ainda era um grande desafio para a indústria automobilística, terminar uma corrida já representava uma vitória significativa.
Durante os anos seguintes, a empresa consolidou-se como um dos fabricantes de automóveis mais prestigiosos dos Estados Unidos. Seus clientes incluíam membros da elite financeira de New York, celebridades e figuras influentes da sociedade americana. Os chassis da marca frequentemente recebiam carrocerias produzidas sob encomenda por renomados encarroçadores, permitindo que cada automóvel fosse praticamente único.
Entretanto, a história da empresa mudaria significativamente em 1915. Nesse ano, o industrial Herbert L. Crane adquiriu participação majoritária na companhia. A partir desse momento, os automóveis passaram a ser conhecidos como Crane-Simplex. A mudança não afetou apenas o nome, mas também trouxe uma série de aprimoramentos técnicos e novas ambições para a empresa.
Os modelos Crane-Simplex continuaram figurando entre os automóveis mais caros e sofisticados da América. O destaque absoluto da linha foi o Crane-Simplex Model 5, equipado com um enorme motor de 6 cilindros e aproximadamente 9.8 litros de cilindrada. O carro era famoso por sua suavidade de funcionamento, potência abundante e excepcional qualidade de construção. Muitos especialistas da época consideravam o Crane-Simplex superior até mesmo a alguns concorrentes europeus de prestígio.
A Primeira Guerra Mundial, porém, trouxe mudanças profundas para a indústria. Assim como diversos fabricantes de luxo americanos, a Crane-Simplex passou a direcionar parte de sua capacidade produtiva para contratos militares. Após o conflito, o mercado automobilístico começou a mudar rapidamente. Fabricantes como Cadillac, Packard e Lincoln ampliavam sua escala de produção e ofereciam carros de luxo cada vez mais sofisticados a custos relativamente menores.
Ao mesmo tempo, os hábitos dos consumidores também evoluíam. Os gigantescos automóveis artesanais do pré-guerra começaram a parecer excessivamente caros e pouco práticos diante das novas demandas do mercado. A produção artesanal, que antes era símbolo de exclusividade, tornou-se uma desvantagem econômica.
A empresa tentou sobreviver durante os anos 1920, mas enfrentou dificuldades crescentes. Os custos de fabricação eram elevados, o volume de produção permanecia reduzido e a concorrência tornava-se cada vez mais intensa. Finalmente, a produção de automóveis foi encerrada em 1922, encerrando uma trajetória que havia durado pouco mais de uma década.
Apesar de sua existência relativamente breve, a importância histórica da Simplex é enorme. Durante muitos anos, seus carros foram considerados os equivalentes americanos dos melhores Mercedes e Rolls-Royce da época. Eles representavam o auge da engenharia automobilística dos Estados Unidos antes da consolidação definitiva da indústria moderna.
Hoje, os raríssimos exemplares sobreviventes figuram entre os automóveis mais valiosos do período Brass Era. Em leilões internacionais, alguns modelos Crane-Simplex alcançam cifras de milhões de dólares, reflexo não apenas de sua raridade, mas também de sua extraordinária relevância histórica.
Existe ainda uma curiosidade interessante: quando os entusiastas discutem os maiores automóveis americanos produzidos antes da Primeira Guerra Mundial, três nomes costumam surgir repetidamente - Packard, Pierce-Arrow e Simplex. Estar nessa lista já demonstra o prestígio que a marca conquistou em sua época. Embora tenha desaparecido há mais de um século, a Simplex continua sendo lembrada como um dos fabricantes que ajudaram a provar que os Estados Unidos eram capazes de construir automóveis tão refinados, rápidos e sofisticados quanto qualquer concorrente europeu.