ALFA ROMEO GIULIA SPRINT GTA (1965): A ‘ALLEGGERITA’ QUE TRANSFORMOU UM PEQUENO COUPÉ EM UMA LENDA DAS PISTAS
Em 1965, a Alfa Romeo apresentou um automóvel que se tornaria uma das mais célebres máquinas de competição produzidas em Milão: o Giulia Sprint GTA, modelo cuja própria denominação já revelava sua principal característica. GTA significava ‘Gran Turismo Alleggerita’, ou Gran Turismo aliviado, e a ideia era transformar o elegante Giulia Sprint GT em uma arma competitiva capaz de disputar as categorias de turismo europeias. O projeto nasceu dentro da Autodelta, a estrutura esportiva oficial da Alfa Romeo comandada por Carlo Chiti, e foi apresentado ao público no Salão de Amsterdam em 1965. Para alcançar a redução de peso necessária, a carroceria convencional de aço foi substituída por painéis de uma liga leve de alumínio especialmente desenvolvida para o projeto, enquanto vidros laterais e traseiro passaram a ser de plexiglass e o interior perdeu diversos componentes considerados desnecessários. O resultado foi extraordinário: enquanto o Giulia Sprint GT de produção pesava mais de 900 kg, o GTA chegava a apenas 745 kg em configuração de estrada, criando uma relação peso/potência excepcional para um automóvel de apenas 1.6 litros.
A receita de redução de massa foi muito além da simples troca dos painéis externos. O projeto utilizava capô, portas e tampa do porta-malas em liga leve, componentes de suspensão em materiais igualmente leves, rodas de magnésio nas configurações de competição, maçanetas simplificadas e diversos elementos internos redesenhados. A carroceria mantinha o elegante desenho desenvolvido pela Bertone, mas adquiria detalhes que denunciavam sua vocação para as pistas, incluindo os pequenos emblemas GTA, a ausência de elementos decorativos supérfluos e uma postura mais agressiva. O entre-eixos foi mantido em 2.350 mm, enquanto o comprimento chegava a 4.080 mm, fazendo do GTA um automóvel relativamente compacto pelos padrões atuais. O baixo peso e a distribuição de massas permitiam explorar plenamente as qualidades do chassi Giulia, que já era reconhecido por seu comportamento dinâmico.
Sob o capô estava o conhecido motor de 4 cilindros em linha de 1.570 cm³, totalmente construído em liga leve e dotado de duplo comando de válvulas no cabeçote. Para o GTA, a Alfa Romeo adotou uma nova cabeça com duas velas por cilindro, dois carburadores Weber de corpo duplo e comandos de válvulas mais esportivos, elevando a potência da versão de rua para 115 cv a 6.000 rpm. O motor mantinha o característico funcionamento em altas rotações dos bialbero da Alfa Romeo e transmitia sua força às rodas traseiras por meio de uma transmissão manual de 5 velocidades, também equipada com ré. A velocidade máxima alcançava cerca de 185 km/h, número bastante expressivo considerando que o automóvel pesava somente 745 kg. A relação entre leveza, potência e capacidade de girar em altas rotações seria justamente um dos elementos que permitiriam ao GTA tornar-se tão competitivo quando preparado pela Autodelta.
A transformação para competição era ainda mais radical. Os engenheiros da Autodelta exploravam praticamente todos os componentes disponíveis, instalando carburadores maiores, pistões de alta compressão, comandos mais agressivos, sistema de escape específico e outras modificações internas. Em configuração de corrida, o mesmo 1.570 cm³ podia desenvolver aproximadamente 170 cv a 7.800 rpm, enquanto o peso de exemplares preparados para competição podia cair para a região dos 760 kg ou até menos, dependendo da especificação. A velocidade máxima ultrapassava 220 km/h. Freios, suspensão, rodas e relações de transmissão também eram adequados às diferentes pistas e categorias. Assim, o GTA de homologação e o verdadeiro carro de corrida eram visualmente semelhantes, mas mecanicamente poderiam apresentar diferenças enormes. A própria Alfa Romeo reconhece que grande parte dos 500 carros construídos foi posteriormente encaminhada à Autodelta ou a preparadores especializados para transformar a base de rua em uma máquina de competição.
A razão para a produção de uma versão de rua tão específica estava na homologação para o Grupo 2, categoria destinada aos carros de turismo modificados. Para que o Giulia Sprint GTA pudesse ser aceito nas competições internacionais, a Alfa Romeo precisava produzir os exemplares de estrada necessários à homologação. Oficialmente, foram construídos 500 GTA entre 1965 e 1969, número que permitiu que a Autodelta levasse o projeto às pistas. E a resposta foi imediata. Já na temporada de 1966, os GTA acumulavam mais de 200 vitórias, entre provas conduzidas pela equipe oficial e por pilotos particulares. O modelo tornou-se particularmente dominante em sua classe nas corridas de turismo e nas provas de subida de montanha, onde seu baixo peso e a excelente capacidade de tração proporcionavam vantagens consideráveis.
Entre os pilotos ligados ao sucesso do GTA estavam Andrea de Adamich, Spartaco Dini e Ignazio Giunti. De Adamich conquistou o European Touring Car Challenge em 1966 e 1967, enquanto Dini venceu a competição em 1969; Giunti, por sua vez, conquistou o Campeonato Europeu de Montanha em 1967. O GTA também encontrou espaço fora da Europa e participou de competições nos Estados Unidos e na América do Sul, ampliando consideravelmente a presença esportiva da Alfa Romeo. A combinação entre o chassi relativamente simples, o motor bialbero e a extrema capacidade de redução de peso fez do GTA uma plataforma extremamente adaptável às diferentes categorias. O sucesso foi tamanho que a Autodelta decidiu explorar uma versão ainda mais extrema, o GTA-SA, equipada com dois turbocompressores e capaz de produzir aproximadamente 220 cv.
A importância histórica do GTA não está somente no número de vitórias. Ele demonstrou de forma muito clara a filosofia que a Alfa Romeo já vinha construindo desde os anos anteriores: um automóvel esportivo não precisava necessariamente de um motor gigantesco quando podia combinar baixo peso, excelente chassi e engenharia inteligente. O princípio ‘Alleggerita’ estava presente em praticamente todos os aspectos do projeto e influenciaria outras criações da marca. A família GTA também estabeleceria uma ponte direta entre os carros de produção e a competição, algo que continuaria presente na imagem da Alfa Romeo durante décadas. O fato de a carroceria de alumínio ter sido desenhada pela Bertone e produzida em colaboração com especialistas em construção leve dava ao GTA uma sofisticação industrial rara para um automóvel destinado à homologação.
O Alfa Romeo Giulia Sprint GTA de 1965 acabaria se tornando, assim, muito mais que uma versão especial do Giulia Sprint GT. Ele foi uma verdadeira ferramenta de competição criada para enfrentar rivais europeus em um momento particularmente fértil do automobilismo de turismo. Sua receita combinava 1.570 cm³, 115 cv na especificação de rua, apenas 745 kg, tração traseira, 5 marchas e uma carroceria Bertone radicalmente aliviada, enquanto as versões de corrida desenvolvidas pela Autodelta chegavam perto dos 170 cv. O sucesso nas pistas, com centenas de vitórias e títulos internacionais, transformou o pequeno coupé em um dos maiores símbolos da engenharia esportiva italiana dos anos 1960. Ainda hoje, poucos modelos sintetizam tão bem a ideia de que, no automobilismo, reduzir peso pode ser tão importante quanto aumentar potência.