BENTLEY MULSANNE S (1991): O DISCRETO RETORNO DA FORÇA BRUTA BRITÂNICA
No início dos anos 1990, a Bentley ainda vivia uma fase de transição. Depois de décadas compartilhando boa parte de sua engenharia com os modelos da Rolls-Royce, a marca começava a recuperar gradualmente a personalidade esportiva que havia construído nas pistas durante a primeira metade do século XX. O Mulsanne S, lançado em 1987, representava justamente essa mudança de orientação: não era um Bentley de aparência extravagante, mas um grande sedan de luxo desenvolvido para entregar uma condução mais firme e envolvente. Em 1991, já próximo do fim de sua carreira, o modelo permanecia como uma das expressões mais tradicionais da Bentley de Crewe. A própria Bentley destaca que a família Mulsanne inaugurou, em 1980, uma nova estratégia para recuperar a herança de alto desempenho da marca, enquanto o posterior Turbo R aprofundou essa filosofia.
Visualmente, o Mulsanne S mantinha a silhueta formal e imponente do Mulsanne, com capô longo, grande grade vertical e uma carroceria de três volumes que transmitia autoridade sem recorrer a excessos. A partir de 1989, os tradicionais faróis retangulares deram lugar ao conjunto de quatro unidades circulares, uma característica que também aparece nos exemplares de 1991. Rodas de liga leve e detalhes mais esportivos ajudavam a diferenciá-lo do Mulsanne convencional, mas era no comportamento dinâmico que estava a verdadeira transformação. A suspensão recebeu calibragem mais firme, enquanto rodas, acabamento interno e diversos elementos foram derivados da filosofia empregada no Turbo R, criando um Bentley que preservava o conforto necessário para longas viagens, mas respondia de maneira mais precisa aos comandos do condutor.
Sob o enorme capô estava o tradicional motor V8 de 6.750 cm³, uma das unidades mecânicas mais longevas da indústria britânica. No Mulsanne S naturalmente aspirado, o motor desenvolvia aproximadamente 205 cv e cerca de 540 Nm de torque, números modestos pelos padrões atuais, mas muito adequados à proposta do automóvel. A força chegava às rodas traseiras por meio de uma transmissão automática de 3 velocidades, privilegiando suavidade e a capacidade de acelerar progressivamente sem exigir rotações elevadas. Em determinadas especificações de mercado, os números de potência variavam, e exemplares destinados à América do Norte, por exemplo, apresentavam calibragens diferentes devido às exigências de emissões.
O resultado era um automóvel de aproximadamente 5.27 metros de comprimento e mais de 2.3 toneladas, dimensões que ajudam a compreender sua personalidade. O Mulsanne S não pretendia ser um esportivo leve, mas um grand tourer de quatro portas, capaz de transportar seus ocupantes em silêncio e absoluto conforto enquanto seu V8 entregava uma reserva generosa de torque. A velocidade máxima girava em torno dos 200 km/h, e a aceleração de 0 a 100 km/h ficava na casa dos dez segundos - números que, isoladamente, parecem modestos, mas ganham outro significado quando lembramos de sua massa e de seu foco primordial em luxo, refinamento e estabilidade em alta velocidade.
No habitáculo, a filosofia era a clássica interpretação britânica do luxo: couro, madeira, instrumentação tradicional e uma atmosfera deliberadamente artesanal. O Mulsanne S incorporava elementos internos de caráter mais esportivo derivados do Turbo R, incluindo um console central específico, mas sem abandonar a experiência aristocrática que se esperava de um Bentley. Era um automóvel destinado a quem queria viajar rapidamente sem abrir mão de um ambiente sofisticado e silencioso, e justamente por isso representava uma alternativa mais discreta aos sedans de luxo alemães que começavam a ganhar força naquele período.
A trajetória do Mulsanne S foi relativamente curta. Produzido entre 1987 e 1992, ele teve cerca de 970 unidades construídas, incluindo versões de entre-eixos normal e longo. O ano de 1991 ocupa uma posição especialmente interessante nessa história: a Bentley já havia apresentado o extraordinário Continental R, lançado naquele mesmo ano como o Bentley mais rápido e potente até então, enquanto o Mulsanne S continuava representando a tradicional fórmula de quatro portas. Em 1993, o Brooklands assumiria seu lugar na linha Bentley, utilizando o mesmo V8 de 6.75 litros e mantendo viva a filosofia dos grandes sedans de Crewe.
Por isso, olhar hoje para um Bentley Mulsanne S de 1991 é observar um automóvel situado exatamente na fronteira entre duas épocas. Ele ainda conserva a construção, o estilo e a atmosfera artesanal dos grandes Bentleys tradicionais, mas já incorpora uma preocupação muito maior com comportamento dinâmico e prazer ao volante. Seu V8 de enorme cilindrada, a suspensão mais firme, as rodas de liga e o interior inspirado no Turbo R fazem dele uma espécie de elo entre o Bentley aristocrático do passado e a marca de caráter esportivo que começaria a renascer com força nos anos seguintes. Discreto por fora, imponente por natureza e extremamente característico por dentro, o Mulsanne S permanece como um dos últimos grandes sedans da velha escola britânica - um automóvel em que luxo e desempenho ainda eram definidos mais pela força serena do que pela tecnologia ostensiva.
O Mulsanne S talvez não tenha o impacto visual de um Continental R, mas representa muito bem aquele momento em que a Bentley começava a reencontrar deliberadamente sua antiga alma esportiva sem abandonar a tradição de luxo de Crewe.