BUGATTI TYPE 55 BILLETER & CARTIER CABRIOLET (1932): A RARA ELEGÂNCIA FRANCESA SOBRE UM CORAÇÃO DE GRAND PRIX
Na França do início dos anos 1930, poucos automóveis conseguiam reunir de maneira tão convincente desempenho de competição, sofisticação artesanal e exclusividade quanto o Bugatti Type 55. Apresentado no Salão de Paris de 1931 e produzido entre 1932 e 1935 em apenas 38 exemplares, o Type 55 era, essencialmente, a interpretação para as estradas do extraordinário Type 51 Grand Prix. Concebido dentro da tradição Bugatti por Ettore e Jean Bugatti, o modelo utilizava uma evolução do motor de 8 cilindros em linha do Type 51, combinando tecnologia de competição com a possibilidade de utilização em estradas públicas.
Entre os raríssimos Type 55 produzidos, entretanto, o exemplar de chassi 55206 ocupa uma posição particularmente especial. Entregue pela fábrica em 26 de fevereiro de 1932 ao doutor Jacques Kocher, em Valence, próximo a Lyon, o automóvel saiu de Molsheim como um chassi rolante e foi imediatamente encaminhado à Billeter & Cartier, tradicional encarroçador sediado em Lyon, para receber uma carroceria cabriolet biplace especialmente encomendada pelo proprietário. O resultado foi uma combinação muito diferente dos conhecidos roadsters de fábrica desenhados por Jean Bugatti: uma elegante carroceria aberta de dois lugares, com portas e proporções mais voltadas ao conforto, mas preservando a personalidade esportiva do Type 55.
A Billeter & Cartier havia sido fundada em Lyon em 1919 e trabalhava principalmente sobre chassis de fabricantes franceses, especialmente Rochet-Schneider e Berliet, embora também tivesse construído carrocerias para Renault e Bugatti. A empresa encerrou suas atividades em 1935, fazendo deste Type 55 um registro particularmente importante de seu trabalho. Mais extraordinário ainda é o fato de que o 55206 é considerado o único Bugatti sobrevivente conhecido equipado originalmente com uma carroceria Billeter & Cartier.
Sob o capô estava o fascinante oito-cilindros em linha de 2.262 cm³, com duplo comando de válvulas no cabeçote e compressor Roots, uma versão suavizada para utilização rodoviária do motor empregado no Type 51 de competição. A potência chegava a aproximadamente 130 cv a 5.000 rpm, valor impressionante para um automóvel de pouco mais de 800 kg no começo dos anos 1930. A transmissão manual de 4 velocidades vinha da família Type 49 e utilizava engrenagens de dentes retos, enquanto as características rodas de alumínio de oito raios completavam o conjunto mecânico. A velocidade máxima ficava na casa dos 180 km/h, transformando o Type 55 em um dos automóveis de estrada mais velozes de sua época.
O doutor Kocher não era um proprietário qualquer. Apaixonado pela Bugatti, ele tinha o hábito de adquirir praticamente todos os anos um novo modelo da marca. Com o Type 55, porém, a relação foi diferente: utilizou o 55206 regularmente durante cerca de três anos e chegou a participar com ele do Rallye des Alpes de 1933. Décadas depois, o automóvel passou por diferentes proprietários; em 1987 foi adquirido pelo comerciante alemão Hans Bitterwolf, que posteriormente o vendeu ao britânico Peter Agg. Durante essa fase, recebeu uma restauração que alterou sua aparência original, incluindo pintura azul com para-lamas pretos e interior em tom cinza-bege. Mais tarde, o Type 55 seria novamente restaurado, recuperando a configuração original em preto com filetes verdes e interior de couro verde, exatamente como havia sido concebido para o doutor Kocher.
O resultado é um automóvel que representa perfeitamente uma época em que comprar um Bugatti significava muito mais do que escolher um modelo de catálogo. O cliente adquiria o chassi, escolhia o tipo de utilização e podia recorrer a um encarroçador independente para criar uma carroceria praticamente única. No caso do Type 55 Billeter & Cartier Cabriolet, essa liberdade produziu uma das interpretações mais raras do modelo: um Bugatti com DNA de Grand Prix, mecânica sofisticada e agressiva, mas vestido com a elegância discreta de uma pequena carroceria artesanal de Lyon. Atualmente, o chassi 55206 é uma peça histórica excepcional, não apenas por ser um dos 38 Type 55 construídos, mas também porque preserva uma das poucas carrocerias externas originais desse extraordinário esportivo francês.