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BUGATTI TYPE 57 CHAPRON CABRIOLET DANDY (1935): A ARTE DA CARROCERIA FRANCESA SOBRE UMA DAS MAIS SOFISTICADAS MECÂNICAS DE SUA ÉPOCA

Na França de 1935, o automóvel de luxo havia alcançado um patamar extraordinário de sofisticação. Fabricantes como Bugatti, Delage, Delahaye e Hispano-Suiza disputavam a preferência de uma clientela exigente, para a qual o automóvel representava não apenas um meio de transporte, mas também uma expressão de elegância, exclusividade e refinamento técnico. Nesse ambiente florescia a tradição das carrocerias artesanais, nas quais os grandes construtores forneciam seus chassis a especialistas independentes, responsáveis por transformar cada encomenda em uma criação praticamente individual. Um exemplo excepcional dessa colaboração foi o Bugatti Type 57 Cabriolet Dandy, com carroceria assinada por Henri Chapron, construído em 1935.

O Type 57 havia sido apresentado oficialmente no Salão de Paris em outubro de 1934, embora seu desenvolvimento e os primeiros exemplares de produção remontassem ao ano anterior. Concebido sob a supervisão de Jean Bugatti, filho de Ettore Bugatti, o modelo representava uma nova geração de automóveis de turismo do fabricante de Molsheim. Sua proposta era combinar desempenho esportivo, conforto para longas viagens e uma arquitetura mecânica sofisticada, oferecendo uma alternativa aos grandes automóveis de luxo europeus. O Type 57 podia receber diferentes carrocerias, incluindo os elegantes Ventoux, Stelvio, Galibier e Atalante, além de chassis fornecidos diretamente a encarroçadores independentes.

O exemplar que aparece nas imagens possui uma particularidade extraordinária: sua carroceria foi construída pela tradicional Carrosserie Henri Chapron, estabelecida em Levallois-Perret, nos arredores de Paris. Fundada por Henri Chapron, a empresa havia adquirido reputação pela qualidade de seus trabalhos sobre chassis de fabricantes como Bugatti, Delage, Delahaye e Avions-Voisin. Sua especialidade era desenvolver carrocerias personalizadas, com atenção especial às proporções, aos acabamentos e à integração entre os elementos estruturais e decorativos.

A carroceria denominada Dandy, concebida especialmente para esse Type 57, apresentava uma configuração conversível de quatro lugares, com duas portas largas, bancos dianteiros individuais reguláveis e reclináveis e um amplo assento traseiro com apoios laterais. A capota podia ser completamente recolhida na parte posterior, utilizando suportes externos, enquanto os para-lamas dianteiros incorporavam elegantes estribos curvos. Na traseira, havia espaço para duas rodas sobressalentes, uma parcialmente integrada à carroceria e outra exposta. O resultado era uma composição de grande personalidade, que combinava a elegância de um cabriolet de luxo com elementos tradicionais dos automóveis franceses de turismo.

O acabamento também merece destaque. O painel de instrumentos e os revestimentos das portas foram concebidos especialmente por Chapron, apresentando desenho próprio e soluções diferentes daquelas utilizadas nas carrocerias convencionais do Type 57. A cabine recebia revestimentos de couro inglês, enquanto a capota era confeccionada em couro envernizado preto. Cada detalhe evidenciava o caráter artesanal da encomenda e a preocupação em oferecer um automóvel verdadeiramente exclusivo.

Sob o longo capô encontrava-se uma das joias da engenharia de Ettore e Jean Bugatti: um motor de 8 cilindros em linha, com 3.257 cm³, dois comandos de válvulas no cabeçote e 16 válvulas. O propulsor aspirado, alimentado por carburador, desenvolvia aproximadamente 135 cv a 4.500 rpm nas primeiras configurações do Type 57. A transmissão manual de 4 velocidades, com engrenagens de engrenamento constante, enviava a potência às rodas traseiras. A arquitetura mecânica proporcionava funcionamento suave, elasticidade e desempenho expressivo para um automóvel de turismo de grandes dimensões.

O chassi convencional da primeira série utilizava uma estrutura de aço com longarinas profundas e reforços transversais. A suspensão dianteira empregava eixo rígido com molas semielípticas, enquanto a traseira utilizava eixo rígido com molas de quarto de elipse invertidas. Os amortecedores eram do tipo hidráulico e de fricção, e a frenagem originalmente utilizava grandes tambores com acionamento mecânico. Essa combinação, desenvolvida com atenção especial à rigidez estrutural e à estabilidade, permitia ao Type 57 oferecer comportamento seguro em velocidades elevadas.

A história particular do exemplar Chapron é tão fascinante quanto sua construção. Identificado pelo chassi 57349, motor número 240 e carroceria Chapron número 4929, o automóvel foi entregue ao primeiro proprietário, Max Hicguet, em 14 de dezembro de 1935. A família Hicguet já possuía outros Bugatti e tinha importante atividade industrial no norte da França. O cabriolet foi utilizado regularmente até o início da Segunda Guerra Mundial, quando acabou guardado. Depois do conflito, passou às mãos de um mecânico que o preservou e, posteriormente, a um proprietário de Nantes, que o manteve praticamente intocado durante quase quatro décadas.

A raridade dessa criação é extraordinária. Os registros históricos indicam que Henri Chapron construiu apenas duas carrocerias muito semelhantes sobre chassis Bugatti Type 57. A primeira, identificada pelo chassi 57215, foi entregue em agosto de 1934, mas não há informações seguras sobre sua sobrevivência. O exemplar 57349 é considerado o único Bugatti Type 57 com carroceria Chapron Dandy sobrevivente conhecido. Sua carroceria original e seu motor também foram preservados, embora alguns componentes mecânicos tenham sofrido alterações ao longo de sua trajetória, incluindo a instalação posterior de freios hidráulicos.

O Bugatti Type 57 Chapron Cabriolet Dandy de 1935 representa, assim, uma das mais interessantes manifestações da colaboração entre a engenharia automobilística e a arte da carroceria francesa. Seu conjunto mecânico sofisticado, a elegância da criação de Henri Chapron e uma história de preservação excepcional fazem dele um testemunho raro de uma época em que cada automóvel de luxo podia ser concebido como uma obra artesanal exclusiva. Mais do que um Bugatti, é um exemplar extraordinário da cultura automobilística francesa dos anos 1930.