VAUXHALL 30/98 VELOX TOURER (1925): O GIGANTE BRITÂNICO QUE TRANSFORMOU POTÊNCIA EM ELEGÂNCIA
Na Inglaterra dos anos 1920, quando a indústria automobilística ainda buscava definir o que seria um verdadeiro Grand Tourer, poucos automóveis possuíam a reputação do Vauxhall 30/98. Nascido antes da Primeira Guerra Mundial como uma evolução dos grandes carros esportivos da Vauxhall, o modelo ganhou fama tanto nas estradas quanto nas competições e, após o conflito, tornou-se uma das máquinas britânicas mais desejadas de sua época. O exemplar Velox Tourer de 1925 pertence justamente à fase de maturidade do modelo, quando a Vauxhall havia aperfeiçoado sua combinação de enorme motor, desempenho impressionante e carroceria aberta para longas viagens.
A história do 30/98 começou em 1913, quando Laurence Pomeroy, engenheiro-chefe da Vauxhall, desenvolveu um automóvel destinado originalmente a competir contra os grandes esportivos europeus. O nome 30/98 fazia referência à potência fiscal britânica e à potência efetiva aproximada do motor, e o modelo rapidamente construiu uma reputação extraordinária. Depois da Primeira Guerra Mundial, a produção foi retomada em 1920, e o 30/98 passou a ser oferecido principalmente com a conhecida carroceria Velox Tourer, uma configuração aberta de quatro lugares que conseguia transformar o enorme desempenho do automóvel em um instrumento relativamente prático para viagens.
O coração mecânico era um monumental motor de 4 cilindros em linha de 4.525 cm³, com válvulas no cabeçote e comando lateral. Para os padrões da década de 1920, tratava-se de uma unidade impressionante não apenas pelo tamanho, mas pela suavidade e capacidade de produzir torque em baixa rotação. Nos primeiros exemplares pós-guerra, a potência girava em torno de 90 cv, mas as versões posteriores, incluindo as de meados da década de 1920, podiam chegar a aproximadamente 112 cv a 3.300 rpm. O motor de grande cilindrada permitia ao 30/98 manter velocidades elevadas durante longos períodos sem exigir rotações excessivas - uma característica fundamental para um verdadeiro carro de longa distância.
A transmissão manual de 4 velocidades, relativamente avançada para a época, enviava a força às rodas traseiras. O conjunto não era leve: dependendo da carroceria, o 30/98 podia superar facilmente 1.500 kg. Mesmo assim, seu enorme torque e as relações cuidadosamente escolhidas permitiam um desempenho extraordinário. A velocidade máxima podia ultrapassar 160 km/h, enquanto os exemplares mais preparados eram capazes de atingir números ainda mais impressionantes. Para um automóvel produzido em série nos anos 1920, era um desempenho que o colocava entre os carros de estrada mais rápidos do mundo.
O Velox Tourer acrescentava ao conjunto uma carroceria aberta de quatro lugares, com para-brisa vertical, capô longo e uma cabine relativamente espaçosa. As linhas eram tipicamente britânicas, mas havia algo de agressivo na enorme extensão do capô, necessária para acomodar o gigantesco motor. A ausência de portas excessivamente elaboradas ou de equipamentos supérfluos revelava que a prioridade continuava sendo a condução. Mesmo sendo um automóvel de turismo, o 30/98 preservava a personalidade de um carro esportivo.
Outro elemento importante era a construção do chassi. O 30/98 utilizava uma estrutura robusta, com eixos rígidos dianteiro e traseiro e suspensão por feixes de molas semielípticas, solução convencional para a época, mas cuidadosamente desenvolvida para suportar as altas velocidades do carro. Os grandes freios mecânicos exigiam esforço considerável do condutor, especialmente em comparação com padrões modernos, mas eram adequados à tecnologia disponível. A direção e o comportamento do carro exigiam experiência, e conduzir um 30/98 rapidamente era uma atividade que demandava respeito e habilidade.
O automóvel também tinha uma reputação singular entre os condutores britânicos porque oferecia algo raro: velocidade elevada sem depender de um motor de competição extremamente temperamental. O grande quatro-cilindros era robusto, relativamente simples e capaz de trabalhar por longos períodos em alta velocidade. Essa característica ajudou a transformar o 30/98 em uma espécie de precursor dos grandes Grand Tourers britânicos, décadas antes de Bentley Continental ou Aston Martin definirem esse segmento.
Em 1925, o Vauxhall 30/98 já era uma verdadeira lenda. Sua produção permaneceu artesanal e relativamente limitada, e a maioria dos exemplares recebeu carrocerias abertas construídas segundo diferentes configurações. Estima-se que menos de 600 unidades tenham sido produzidas entre 1913 e 1927, tornando qualquer exemplar sobrevivente uma peça importante da história automobilística britânica. O modelo continuou em produção até 1927, quando a Vauxhall encerrou sua carreira após aproximadamente 313 exemplares da série pós-guerra, dependendo do critério utilizado para contabilização.
O Vauxhall 30/98 Velox Tourer de 1925 representa, portanto, uma das expressões mais puras da engenharia britânica do período entre guerras. Era grande, pesado e mecanicamente simples segundo os padrões atuais, mas combinava essas características com uma potência e uma velocidade extraordinárias. Antes que o termo ‘Grand Tourer’ se consolidasse, o 30/98 já demonstrava o que essa categoria poderia significar: atravessar grandes distâncias rapidamente, com quatro ocupantes, bagagem e uma dose considerável de emoção. É justamente essa mistura de brutalidade mecânica e elegância britânica que faz dele um dos grandes clássicos da década de 1920.