JACKSON AUTOMOBILE COMPANY: A pioneira de Michigan que ajudou a escrever os primeiros capítulos do automóvel americano
Muito antes de Detroit consolidar definitivamente sua posição como capital mundial do automóvel, a cidade de Jackson, Michigan, já experimentava uma verdadeira febre automobilística. No começo do século XX, cerca de 25 fabricantes chegaram a atuar na cidade em diferentes momentos, e entre os pioneiros estava a Jackson Automobile Company, uma empresa que nasceu em meio à chamada Brass Era e que, durante duas décadas, produziu automóveis que combinavam soluções mecânicas bastante avançadas para seu tempo com uma reputação de robustez.
A história começa principalmente com Byron J. Carter, um homem de múltiplas habilidades que havia trabalhado com máquinas a vapor e administrado, juntamente com o pai, um negócio de bicicletas. Carter construiu seu primeiro automóvel movido a gasolina ainda em 1899, mas sua verdadeira paixão estava na propulsão a vapor. Em 1901, chegou a desenvolver um automóvel a vapor cujo projeto seria produzido pela Michigan Automobile Company, de Kalamazoo. No ano seguinte, retornou a Jackson levando consigo uma evolução de seu trabalho: um motor a vapor de 3 cilindros e aproximadamente 6 cv de potência. Para transformar suas ideias em produção comercial, associou-se a George A. Matthews, fabricante de carroças, e Charles Lewis, empresário ligado à fabricação de eixos e molas. A Jackson Automobile Company surgia oficialmente em 1902, embora algumas fontes utilizem 1903 como o início formal da empresa.
O primeiro capítulo dessa história foi curioso porque a companhia inicialmente trabalhou tanto com vapor quanto com gasolina. O Jaxon, apresentado em 1903, utilizava o motor a vapor de 3 cilindros desenvolvido por Carter, com cerca de 6 cv e transmissão por corrente. Havia duas versões, Model A e Model B, com preços de 975 e 800 dólares, respectivamente. O empreendimento, porém, teria vida extremamente curta: o Jaxon a vapor desapareceu do catálogo depois de apenas um ano. A partir daí, a denominação Jackson passou a identificar os automóveis movidos a gasolina.
O primeiro Jackson produzido em volume também surgiu em 1903 e era um automóvel relativamente simples, com motor de 1 cilindro e aparência próxima à do Oldsmobile Curved Dash. A evolução mecânica foi rápida: em 1904 surgiram motores de 2 cilindros e, em 1906, a marca já oferecia unidades de 4 cilindros. A pequena fábrica de Jackson estava, portanto, acompanhando a transformação do automóvel americano de uma curiosidade mecânica para um produto industrial.
Foi justamente nessa fase inicial que aconteceu um dos episódios mais importantes da trajetória da empresa. Carter havia desenvolvido uma transmissão por fricção, solução que dispensava a tradicional caixa de câmbio baseada em engrenagens e permitia variação contínua da relação de transmissão - uma ideia surpreendentemente próxima, em princípio, das transmissões continuamente variáveis modernas. Seus sócios, entretanto, não estavam dispostos a adotar a tecnologia. O desacordo levou Carter a deixar a Jackson em 1905 e fundar sua própria empresa, a Motorcar Company, que posteriormente produziria o famoso Cartercar.
Sem seu principal inventor, a Jackson precisou encontrar seu próprio caminho. E conseguiu. Os automóveis continuaram a ganhar reputação pela construção sólida e pela durabilidade, enquanto a gama crescia progressivamente. Em 1910, George A. Matthews comprou a participação de Charles Lewis e tornou-se a principal figura da companhia. A empresa também passou a utilizar motores cada vez mais sofisticados: um seis-cilindros Northway tornou-se disponível em 1913, enquanto em 1916 surgiu a possibilidade de utilizar um V8 Ferro. A Jackson chegou ainda a desenvolver seus próprios motores com válvulas no cabeçote e comando de válvulas no cabeçote, mostrando que a companhia estava longe de ser apenas mais uma montadora artesanal da época.
A competição automobilística também serviu para demonstrar a resistência dos Jackson. Em 1909, um automóvel da marca venceu a Wheeler-Schebler Trophy Race, realizada no Indianapolis Motor Speedway, e terminou novamente em segundo na edição de 1910. No primeiro Indianapolis 500, em 1911, um Jackson equipado com enorme motor de 4 cilindros e 9.2 litros terminou em 10º lugar geral, alcançando velocidade máxima de aproximadamente 120 km/h. Para uma empresa relativamente pequena, eram resultados expressivos e que ajudavam a construir uma imagem de competência mecânica.
A Jackson também não tinha medo de experimentar. Em 1913 apareceu o curioso Duck, conhecido igualmente como Jackson Back Seat Steer, que levava os comandos de direção para a região traseira do habitáculo. Era uma solução incomum que refletia o espírito experimental daquele período, quando os fabricantes ainda procuravam descobrir qual seria a configuração definitiva do automóvel. Paralelamente, a marca continuava aprimorando seus modelos convencionais e chegou a empregar, nos veículos maiores, embreagem multidisco banhada em óleo.
Durante a Primeira Guerra Mundial, entretanto, a trajetória começou a mudar. A produção de automóveis caiu significativamente à medida que a fábrica passou a fabricar materiais destinados ao esforço de guerra. Em 1919, toda a produção estava voltada para suprimentos militares, deixando a marca praticamente afastada do mercado automobilístico. Quando os automóveis voltaram a ser produzidos em 1920, a empresa já enfrentava dificuldades financeiras e uma percepção de que seus produtos não apresentavam mais o mesmo nível de competitividade de antes. A recessão de 1921 agravou o problema, justamente quando o elegante Princess Coupe recebia boa acolhida no Chicago Auto Show.
A situação tornou-se irreversível. Em 1923, a Jackson Automobile Company foi absorvida pela recém-formada Associated Motor Industries, juntamente com a Dixie Flyer, de Louisville, e a National, de Indianapolis. A produção da marca prosseguiu apenas brevemente e cessou definitivamente em 1924, encerrando uma trajetória de aproximadamente duas décadas.
O fim da Jackson foi particularmente simbólico porque coincidiu com a transformação definitiva da indústria americana. O automóvel abandonava a era dos pequenos fabricantes regionais e entrava no período dominado pela produção em grande escala. A própria cidade de Jackson, que havia abrigado dezenas de fabricantes, deixou de produzir automóveis completos em 1924 e gradualmente encontrou uma nova vocação como fornecedora de componentes para a indústria automobilística de Detroit.
Assim, a Jackson Automobile Company permanece como uma dessas fascinantes marcas desaparecidas que ajudam a explicar como nasceu a indústria automobilística americana. Começou experimentando com vapor, adotou rapidamente a gasolina, desenvolveu motores próprios, participou de competições, ousou com soluções como o Back Seat Steer e chegou a produzir automóveis sofisticados o suficiente para enfrentar concorrentes de maior porte. Sua história também é a história de Byron J. Carter, um inventor que enxergava possibilidades técnicas antes de seus sócios e que, ao deixar a Jackson, acabaria criando outra marca igualmente curiosa. No fim, a empresa não conseguiu sobreviver à brutal transformação econômica do pós-guerra, mas deixou uma contribuição importante para a história automotiva de Michigan - e seus carros continuam sendo testemunhas de uma época em que quase toda cidade industrial americana sonhava em construir o automóvel do futuro.