Mastretta: A pequena fábrica mexicana que transformou um sonho em um esportivo de classe mundial
A história da Mastretta é uma das mais interessantes experiências da indústria automobilística mexicana contemporânea. Muito mais do que um simples fabricante de automóveis, a empresa nasceu como um pequeno estúdio de engenharia e desenho industrial e, ao longo de pouco mais de duas décadas, percorreu um caminho que começaria com projetos para o transporte coletivo, passaria pela construção artesanal de kit cars e culminaria no Mastretta MXT, um esportivo de produção limitada desenvolvido no México e destinado também aos mercados internacionais. Por trás dessa trajetória estavam os irmãos Daniel e Carlos Mastretta, determinados a demonstrar que uma empresa mexicana de pequeno porte poderia conceber e fabricar um automóvel esportivo sofisticado.
A origem remonta a 1987, na Cidade do México, quando Daniel Mastretta, designer industrial, e seu irmão Carlos fundaram a Tecnoidea, inicialmente concebida como uma consultoria especializada em desenho industrial, engenharia e desenvolvimento de produtos para o setor de transportes. A escolha do segmento não foi casual: os irmãos tinham grande interesse por automóveis e já possuíam experiência em manufatura e administração. Daniel assumiu principalmente as funções técnicas e de desenho, enquanto Carlos concentrou-se na área empresarial. A Tecnoidea começou prestando serviços a fabricantes e operadores do setor de transporte, trabalhando na redução de custos, na engenharia e na criação de novos veículos.
Durante a década de 1990, a empresa encontrou no transporte coletivo mexicano uma importante fonte de trabalho. A Tecnoidea passou a desenvolver chassis, carrocerias e projetos completos para micro-ônibus e ônibus urbanos, chegando a criar mais de duas dezenas de modelos destinados ao sistema de transporte mexicano. Seus projetos apareceram em veículos associados a fabricantes como AYCO, International, Volvo e Mercedes-Benz, proporcionando à empresa uma experiência considerável em engenharia estrutural, processos de fabricação e desenvolvimento de veículos em escala industrial. Esse conhecimento seria fundamental mais tarde, quando os irmãos decidissem abandonar temporariamente o universo dos ônibus para perseguir um sonho muito mais pessoal: construir seu próprio automóvel esportivo.
A paixão por automóveis, entretanto, já havia levado a família a experimentar veículos esportivos de pequena escala. Na segunda metade dos anos 1990, a Tecnoidea começou a desenvolver kit cars, utilizando componentes mecânicos disponíveis no mercado e criando carrocerias próprias. O primeiro resultado foi o Mastretta MXA, apresentado em 1998. O protótipo utilizava inicialmente uma plataforma associada ao Volkswagen Tipo 1, mas a configuração acabou sendo modificada para utilizar o chassi do Volkswagen Sedan. Embora sua produção tenha sido pequena, algumas unidades chegaram a ser exportadas para a Alemanha e os Estados Unidos, demonstrando que havia interesse internacional pela iniciativa mexicana.
O MXA foi seguido pelo MXB, uma evolução do conceito anterior. Esses automóveis eram importantes não apenas como produtos comerciais, mas como verdadeiros laboratórios para a Mastretta. A empresa aprendia a trabalhar com carrocerias próprias, integração de componentes, construção de chassis e, sobretudo, com a necessidade de transformar um desenho em um veículo funcional. Segundo Daniel Mastretta, a experiência acumulada com os primeiros carros e protótipos convenceu os irmãos de que possuíam conhecimento suficiente para dar o passo seguinte e desenvolver um automóvel completamente novo.
Esse passo começou a tomar forma no início dos anos 2000. Por volta de 2004-2005, a Mastretta iniciou o desenvolvimento do projeto que receberia o nome MXT, denominação que fazia referência ao México e à configuração transversal originalmente planejada. O projeto era muito mais ambicioso que os anteriores: em vez de um kit car baseado em componentes de outro automóvel, os irmãos queriam criar um verdadeiro esportivo de produção, com chassi, carroceria e interior próprios. A ideia era desenvolver um carro leve, de alto desempenho e relativamente simples, capaz de competir no nicho ocupado por modelos como o Lotus Elise.
O desenvolvimento do MXT também contou com apoio institucional mexicano. A Tecnoidea realizou pesquisas envolvendo materiais, processos de fabricação, fornecedores e métodos de montagem, enquanto uma nova geração do projeto era desenvolvida por meio de desenho manual, modelagem virtual e construção de protótipos físicos. O objetivo era cumprir normas internacionais de segurança e qualidade e tornar possível a exportação do automóvel. A empresa não queria simplesmente criar um esportivo artesanal para o mercado doméstico: pretendia construir um produto mexicano capaz de ser vendido em países com regulamentações muito mais rigorosas.
O Mastretta MXT Prototipo Cero foi apresentado internacionalmente no British International Motor Show de Londres, em 2008, marcando uma etapa decisiva para a empresa. O protótipo chamou atenção justamente por representar algo raro: um esportivo criado por uma pequena empresa mexicana que pretendia alcançar mercados europeus e norte-americanos. O projeto inicialmente previa a produção para 2008, mas a crise financeira mundial de 2009 e as dificuldades para encontrar um conjunto mecânico adequado provocaram atrasos. O desenvolvimento continuou até que a empresa definiu a configuração definitiva do automóvel.
A versão de produção finalmente estreou no Salão de Paris de 2010, e a fabricação em série começou em 2011, em uma nova instalação no Estado do México. A capacidade planejada era de aproximadamente 150 automóveis por ano, número que deixava claro que a Mastretta não pretendia competir com grandes fabricantes. Tratava-se de uma operação de baixo volume, na qual grande parte do trabalho de construção era realizada no próprio México. A previsão inicial era destinar aproximadamente 70% da produção à exportação para Europa e Estados Unidos, mantendo o restante para o mercado mexicano.
O MXT acabou se tornando o símbolo da empresa. Com motor central-traseiro, construção extremamente leve e uma filosofia semelhante à dos pequenos esportivos britânicos, utilizava inicialmente um motor Ford de 4 cilindros, posteriormente configurado como um 2.0 turboalimentado, associado a uma transmissão manual de 5 velocidades. O chassi tubular/monocoque e o emprego de alumínio e materiais compostos permitiam manter o peso em aproximadamente 930 kg na configuração de produção. Dependendo da versão, a potência chegava à faixa dos 240-250 cv, suficiente para proporcionar aceleração de 0 a 100 km/h em menos de 5 segundos.
O projeto ganhou visibilidade internacional, inclusive com a participação de Richard Hammond no programa Top Gear, episódio que acabou gerando uma enorme repercussão para a pequena empresa mexicana. A exposição provocou uma explosão de interesse pelo automóvel e fez com que o site da Mastretta recebesse grande quantidade de acessos e pedidos. Curiosamente, a publicidade inicialmente controversa acabou funcionando como uma extraordinária campanha involuntária para a marca.
Apesar da repercussão, transformar o MXT em um negócio sustentável revelou-se extremamente difícil. Produzir um esportivo de baixo volume exige investimentos elevados em engenharia, homologação, fornecedores e ferramentas, mas não permite diluir esses custos através de grandes volumes de produção. A Mastretta também enfrentava o desafio de competir por compradores contra fabricantes de maior tradição e capacidade financeira. Em 2014, depois de apenas alguns anos de produção, a fabricação do MXT chegou ao fim e a Mastretta Cars encerrou suas operações automotivas.
A aventura, entretanto, não significou o desaparecimento completo do nome Mastretta. A experiência acumulada ao longo de décadas continuou sendo aplicada no desenvolvimento de novos conceitos de mobilidade. Mais recentemente, os irmãos Mastretta voltaram suas atenções para veículos leves de transporte urbano e bicicletas elétricas, mantendo a filosofia de combinar engenharia, desenho industrial e fabricação mexicana. A própria empresa destaca que sua experiência remonta a 1987 e inclui ônibus, veículos utilitários e o MXT.
A importância histórica da Mastretta está justamente em sua escala. Ela nunca foi uma grande montadora mexicana no sentido tradicional e tampouco produziu automóveis em volumes comparáveis aos grandes fabricantes instalados no México. Foi, antes, uma empresa independente de engenharia e design que decidiu transformar conhecimento técnico acumulado em um automóvel próprio. O MXT não foi apenas um esportivo raro: tornou-se uma demonstração de que uma equipe mexicana poderia desenvolver um veículo completo, projetá-lo segundo padrões internacionais e levá-lo ao mercado global.
Por isso, a história da Mastretta merece ser vista como uma das mais singulares páginas da indústria automobilística latino-americana. Da pequena consultoria fundada em 1987 aos primeiros kit cars, dos ônibus urbanos ao ousado MXT, os irmãos Mastretta construíram uma trajetória baseada muito menos em escala do que em engenharia, criatividade e persistência. O MXT teve uma existência curta, mas cumpriu uma função que talvez fosse ainda mais importante que seu sucesso comercial: colocou o nome México no mapa mundial dos pequenos fabricantes de automóveis esportivos e mostrou que, mesmo em um setor dominado por gigantes multinacionais, ainda havia espaço para uma pequena empresa construir algo genuinamente próprio.