CREATION AUTOSPORTIF - O pequeno construtor britânico que enfrentou os gigantes de Le Mans
No início dos anos 2000, enquanto Audi, Peugeot e outros grandes fabricantes investiam milhões de dólares nos protótipos de endurance, uma pequena empresa britânica sediada em Oxford decidiu seguir um caminho muito mais independente. Fundada em 2003 por Mike Jankowski e Ian Bickerton, a Creation Autosportif nasceu inicialmente como equipe de competição, mas rapidamente evoluiu para um construtor de protótipos destinados às provas de longa duração. Seu nome, curiosamente, foi inspirado nos famosos Pillars of Creation, uma formação de gás e poeira localizada na Nebulosa da Águia, escolhida por Jankowski, apaixonado por astronomia.
A primeira temporada foi disputada no FIA GT Championship, com dois Lister Storm GT, apoiados pela revista Stuff. A estreia foi bastante promissora para uma equipe tão jovem: a Creation conquistou seu primeiro pódio em Oschersleben, com um segundo lugar, e terminou o campeonato de equipes na quarta posição. Em 2004, porém, problemas de confiabilidade dos Lister levaram a equipe a abandonar o programa antes do fim da temporada e concentrar seus esforços em uma nova empreitada: os protótipos de Le Mans.
Para esse novo projeto, a Creation adquiriu da RN Motorsport um DBA 03S, derivado do Reynard 02S. O protótipo, de motor central e carroceria aberta, estreou na recém-criada Le Mans Endurance Series (LMES) em 2004. Equipado inicialmente com um V8 Zytek de aproximadamente 3.4 litros, o carro demonstrou imediatamente seu potencial. A Creation conquistou dois terceiros lugares e terminou sua primeira temporada de protótipos na quarta colocação do campeonato de equipes. Em sua estreia na American Le Mans Series, a equipe ainda surpreendeu ao conquistar a pole position em Laguna Seca, à frente dos dominantes Audi R8, embora problemas mecânicos tenham impedido um resultado equivalente na corrida.
Para 2005, a equipe substituiu o motor Zytek por um Judd GV5 V10 de 5.0 litros, buscando maior potência e desempenho para enfrentar os principais concorrentes da categoria LMP1. O investimento produziu resultados: o DBA 03S chegou ao segundo lugar em Silverstone e a outros pódios durante a temporada. Mais importante ainda, a Creation recebeu sua primeira inscrição para as 24 Horas de Le Mans. O protótipo número 7, conduzido por Nicolas Minassian, Jamie Campbell-Walter e Andy Wallace, conseguiu completar a prova em 14º lugar geral, uma conquista significativa para uma estrutura independente que apenas dois anos antes ainda competia com Lister Storms no FIA GT.
A mudança decisiva ocorreu em 2006. As alterações nos regulamentos dos protótipos de Le Mans tornaram o DBA 03S original incompatível com as novas exigências, obrigando a Creation a realizar uma profunda reconstrução. Com o auxílio da empresa de engenharia KWM, dirigida pelo engenheiro Kieron Salter, o antigo Reynard/DBA recebeu nova carroceria, importantes modificações aerodinâmicas e atualização estrutural. O resultado foi rebatizado Creation CA06/H. A transformação foi tão profunda que, na prática, o protótipo passou a representar uma nova etapa na história do pequeno construtor britânico.
O CA06/H também recebeu o maior motor Judd GV5, e a combinação mostrou-se extremamente competitiva. A Creation conquistou diversos pódios na Le Mans Series de 2006, incluindo segundo lugar em Nürburgring e uma extraordinária dobradinha de segundo e terceiro lugares em Donington Park. Ao final da temporada, a equipe terminou vice-campeã entre as equipes, resultado que lhe garantiu um convite automático para a edição de 2007 das 24 Horas de Le Mans. Na American Le Mans Series, o carro também voltou a chamar atenção ao conquistar a pole e terminar em terceiro em Laguna Seca, além de chegar em quarto no Petit Le Mans.
O passo seguinte foi ainda mais ambicioso. Para 2007, a Creation desenvolveu seu primeiro protótipo inteiramente novo, o CA07, novamente com participação de Kieron Salter e da KWM. Construído em torno de um monocoque de materiais compostos de carbono e alumínio, o carro utilizava suspensão independente com braços duplos e acionamento push-rod, freios de carbono e uma transmissão sequencial Ricardo de 6 velocidades. Inicialmente, a propulsão vinha de um Judd GV5.5 V10 de 5.496 cm³, naturalmente aspirado, instalado longitudinalmente em posição central.
O CA07 estreou justamente nas 24 Horas de Le Mans de 2007, apenas duas semanas depois de sua conclusão. O carro qualificou-se em décimo lugar geral e foi o quarto protótipo equipado com motor a gasolina mais rápido, uma demonstração impressionante de velocidade diante dos concorrentes de fábrica. Na corrida, porém, problemas de superaquecimento e acidentes impediram que chegasse ao final. Ainda assim, a temporada terminou com resultados importantes na Le Mans Series, incluindo um terceiro lugar em Interlagos, além de um quinto lugar geral e segundo da classe no Petit Le Mans.
Em 2008, a Creation aprofundou sua parceria com a japonesa AIM, que financiou o desenvolvimento de uma nova evolução do V10. O motor AIM YS5.5, também com 5.496 cm³, passou a utilizar configuração de 90 graus e chegava a aproximadamente 650 cv a 7.000 rpm e 746 Nm a 6.500 rpm. O CA07 continuou sendo utilizado tanto pela Creation quanto por equipes clientes, e dois chassis chegaram a competir pela própria estrutura britânica na Le Mans Series. Em Monza, um dos carros terminou em quarto lugar, enquanto em Silverstone outro alcançou a sexta posição.
A Creation também demonstrou interesse em transformar o CA07 em um verdadeiro produto comercial. Os dois CA06/H anteriores foram vendidos a equipes norte-americanas, Intersport Racing e Autocon Motorsports, que receberam suporte técnico do próprio construtor para disputar a American Le Mans Series. O projeto representava uma oportunidade interessante para equipes independentes que desejavam entrar na LMP1 sem desenvolver um protótipo completamente novo.
Entretanto, o sonho de crescimento internacional seria interrompido pela crise financeira mundial de 2008. Os recursos disponíveis diminuíram drasticamente e a Creation não conseguiu manter um programa completo para 2009. A equipe concentrou seus esforços novamente nas 24 Horas de Le Mans, utilizando um único CA07, agora equipado com o Judd GV5.5. O carro número 4, conduzido por Jamie Campbell-Walter, Vanina Ickx e Romain Iannetta, qualificou-se em 19º lugar e terminou a prova em 24º, completando 316 voltas.
Esse resultado acabaria representando o último capítulo da Creation Autosportif nas grandes provas internacionais. Em apenas seis anos, a empresa havia percorrido um caminho extraordinário: começou com Lister Storms no FIA GT, passou para um protótipo Reynard/DBA adquirido de segunda mão, transformou-o no CA06/H, desenvolveu seu próprio CA07 e chegou a enfrentar diretamente fabricantes e equipes de enorme estrutura nas pistas mais importantes do mundo. Sua trajetória competitiva registrada entre 2006 e 2009 soma dezenas de participações, dois segundos lugares e três terceiros lugares, além de poles e diversas chegadas entre os primeiros colocados.
A história da Creation Autosportif é, portanto, especialmente interessante porque representa uma época em que uma pequena estrutura independente ainda podia construir seu próprio protótipo, desenvolver motores em parceria com especialistas, vender chassis a outras equipes e alinhar na largada das 24 Horas de Le Mans ao lado dos gigantes da indústria. A empresa nunca conquistou uma vitória absoluta em grandes provas de endurance, mas conseguiu algo talvez mais significativo para um construtor de seu tamanho: transformar recursos relativamente modestos em protótipos rápidos, tecnicamente sofisticados e capazes de desafiar concorrentes muito maiores. Seus CA06/H e CA07 permanecem como testemunhos de uma das últimas fases românticas da construção independente de protótipos de Le Mans.