Mazel - a engenharia espanhola que sonhou em transformar protótipos em automóveis
A história da Mazel é particularmente interessante porque se situa naquela fronteira pouco conhecida da indústria automobilística em que empresas de engenharia, estúdios de design e fornecedores especializados acabam assumindo, ainda que temporariamente, o papel de construtores de automóveis. Mais do que um fabricante tradicional, com linha própria de produção, concessionárias e uma gama de modelos, a Mazel foi essencialmente uma empresa espanhola de engenharia, desenvolvimento e construção de protótipos automotivos, estabelecida em Barcelona e especializada em transformar projetos conceituais em veículos fisicamente funcionais. Sua atuação incluía desenvolvimento de componentes, engenharia de veículos, construção de modelos experimentais e colaboração com grandes fabricantes, tornando-se uma espécie de ‘engenharia independente’ capaz de executar projetos que normalmente ficariam restritos aos departamentos de desenvolvimento das próprias montadoras. A imprensa especializada da época chegou a descrevê-la simplesmente como uma grande empresa de engenharia de Barcelona com numerosos contratos para a indústria automobilística.
Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, a Mazel construiu uma reputação justamente nesse universo de projetos especiais. A empresa participou de diversos estudos e protótipos destinados a mostrar novas possibilidades de design, arquitetura e tecnologia automotiva. Um dos trabalhos mais conhecidos foi o Hispano-Suiza HS21, apresentado no Salão de Genebra de 2000, um exercício de superesportivo de dois lugares que, embora associado à histórica marca Hispano-Suiza, era essencialmente uma demonstração das capacidades de design e engenharia da própria Mazel. O protótipo utilizava inclusive uma plataforma modificada do Renault Sport Spider. A empresa também participou de projetos para fabricantes estabelecidos, mostrando que sua atividade estava muito mais próxima da engenharia automotiva terceirizada e do desenvolvimento experimental do que da fabricação convencional de veículos.
Foi nesse ambiente que surgiu o projeto que levaria ao Mazel Identity. Em 2005, a empresa já havia aparecido no Salão de Barcelona com o FIAT Sportiva Latina, desenvolvido em colaboração com o grupo FIAT, consolidando sua imagem como uma companhia capaz de materializar conceitos automobilísticos sofisticados. Mas a Mazel aparentemente pretendia dar um passo muito mais ambicioso: deixar de ser apenas a empresa que desenvolvia carros para terceiros e criar uma identidade automotiva própria.
O resultado foi apresentado no Salão de Genebra de 2006. Batizado Identity i1, o automóvel foi concebido como um projeto que pretendia fazer nascer não apenas um novo modelo, mas também uma nova marca. O desenho foi desenvolvido pela H2R Design Consulting, também de Barcelona, sob a direção do designer Humberto Rodríguez, enquanto a Mazel ficou responsável pela engenharia e pela construção do protótipo físico. O projeto envolveu ainda empresas especializadas de outros países: a italiana ATR participou do desenvolvimento do chassi de materiais compostos e a Studio Linea 2, de Turin, trabalhou no desenvolvimento da carroceria. A própria documentação de lançamento descrevia o projeto como uma demonstração conjunta da capacidade tecnológica da H2R e da Mazel.
O Identity i1 era, portanto, muito mais do que um simples exercício de estilo. Tratava-se de um coupé esportivo de dois lugares, motor central e tração traseira, concebido com uma arquitetura bastante avançada para a época. A carroceria apresentava proporções extremamente baixas e largas, portas de abertura vertical e grandes rodas de 19 polegadas na dianteira e 20 polegadas na traseira. O comprimento chegava a 4.425 mm, a largura a 1.913 mm, a altura a apenas 1.261 mm e o entre-eixos media 2.690 mm.
Sob a carroceria encontrava-se um motor V8 de alumínio, instalado longitudinalmente em posição central-traseira, com aproximadamente 487 cv, associado a uma transmissão automatizada de 6 velocidades e responsável por movimentar as rodas traseiras. A proposta incluía ainda soluções eletrônicas inovadoras, entre elas sistemas Shift-by-Wire e Brake-by-Wire, além de tecnologias de iluminação e retrovisores desenvolvidas com a participação da Ficosa. O chassi utilizava materiais compostos, enquanto a própria estrutura da carroceria recorria a processos avançados de fabricação.
Mas a grande importância do Identity estava justamente na intenção por trás dele. A Mazel queria transformar sua competência como empresa de engenharia em uma atividade automobilística própria. Reportagens publicadas na época diziam que o grupo pretendia colocar o carro em produção e utilizar o nome Identity como uma nova marca. Entretanto, o plano ainda estava longe de possuir a estrutura industrial de uma verdadeira montadora. A própria imprensa especializada observava que a Mazel pretendia iniciar a produção, mas não havia informações concretas sobre como essa operação seria organizada.
Na Espanha, entretanto, o projeto parecia mais concreto. O empresário galego José Ramón Fernández Franqueira estava à frente da iniciativa empresarial ligada à futura Identity e pretendia instalar a operação em Carballo, na Galícia, onde buscava financiamento e uma área industrial de aproximadamente 7.000 metros quadrados. A intenção anunciada em 2006 era produzir pequenas séries de aproximadamente 300 automóveis, com cada unidade podendo receber acabamentos individualizados. O projeto previa inclusive a criação de dezenas de empregos diretos e centenas de postos indiretos.
A realidade, contudo, seria muito mais difícil. O protótipo chegou a ser levado de volta para a Galícia depois de sua apresentação em Genebra, mas a prometida produção em série não se concretizou. Em 2008, o jornal El País descreveu o curioso destino do carro: depois de sua aparição internacional, o único protótipo havia acabado guardado na garagem de amigos do promotor do projeto. A reportagem explicava que a H2R havia desenvolvido o conceito e o desenho virtual, enquanto o Mazel-Group havia realizado o modelo de apresentação, deixando evidente novamente que a Mazel funcionava fundamentalmente como empresa de engenharia e desenvolvimento, e não como uma montadora convencional.
Assim, a melhor maneira de definir a Mazel é como uma empresa espanhola de engenharia automotiva e construção de protótipos que tentou, por meio do projeto Identity, transformar-se em fabricante e criar uma marca própria. O Mazel Identity i1 de 2006 acabou sendo o símbolo mais ambicioso dessa tentativa. Não chegou a existir uma verdadeira produção seriada do modelo e, portanto, não é correto colocar a Mazel no mesmo grupo de fabricantes tradicionais espanhóis como SEAT ou Hispano-Suiza. É mais preciso considerá-la uma engenharia automotiva que chegou a conceber e construir seu próprio protótipo com intenção declarada de produção. O Identity foi, nesse sentido, a ponte entre duas atividades: de um lado, a Mazel que durante anos desenvolveu automóveis para outras empresas; de outro, a sonhada Identity Cars, que pretendia finalmente colocar seu próprio nome em um automóvel produzido em pequena série.