Colchester Racing Developments: a pequena fábrica de Essex que transformou a Merlyn em uma das grandes marcas das fórmulas inglesas
Na história do automobilismo britânico das décadas de 1960 e 1970, alguns dos mais interessantes fabricantes de carros de corrida nasceram longe das grandes indústrias e sobreviveram graças à combinação de talento, improvisação e conhecimento artesanal. Entre eles está a Colchester Racing Developments, empresa de Essex responsável pela construção dos automóveis de competição Merlyn, cuja trajetória começou em 1960 e se estenderia por quase duas décadas. Selwyn Hayward é normalmente identificado como o fundador da companhia, embora algumas referências também atribuam a fundação a uma associação entre Hayward e Clive Maskrey. Inicialmente instalada na região de Colchester, a empresa dedicou-se à construção de monopostos leves para as categorias de base, começando pela Fórmula Junior, e posteriormente avançando para Fórmula 3, Fórmula 2, carros esportivos e, sobretudo, Fórmula Ford. Selwyn não era apenas administrador: também projetava e conduzia os próprios carros, enquanto alguns anos depois seu irmão mais novo, Clive Hayward, se juntaria à empresa e teria papel fundamental no desenvolvimento dos Merlyns seguintes.
O primeiro projeto foi o Merlyn Mk1, concebido em 1960 para a Fórmula Junior e equipado com o motor Ford 105E. Era um monoposto de motor dianteiro e, embora tenha servido como ponto de partida para a empresa, praticamente não chegou a desenvolver uma carreira competitiva significativa. O Mk2 representou uma evolução dessa concepção, enquanto o Mk3, lançado em 1961, marcou uma mudança importante ao adotar o motor em posição traseira, acompanhando a revolução técnica que começava a dominar as categorias de monopostos europeias. Cerca de 16 exemplares do Mk3 foram construídos, e o carro passou a competir com nomes estabelecidos como Cooper. Entre os pilotos que conduziram Merlyn nessa fase esteve o belga Teddy Pilette, que mais tarde teria participação na tentativa de levar o conceito a um nível ainda mais elevado, enquanto Ian Raby e outros pilotos utilizaram os carros em provas britânicas. A Merlyn também passou a mirar provas internacionais: em 1962, a marca entrou pela primeira vez no Grande Prêmio de Fórmula 3 de Mônaco, experiência que simbolizava a ambição crescente do pequeno fabricante.
Paralelamente aos monopostos, a Colchester Racing Developments desenvolveu o Merlyn Mk4, um pequeno carro esportivo construído segundo os regulamentos do Apêndice C da FIA. O modelo podia utilizar motores de 4 cilindros como o Ford Anglia de 1.1 litros ou o Coventry Climax de 2.0 litros, e sua evolução Mk4A conseguiu um resultado de destaque em 1963, quando um exemplar conduzido por Richard Redgrave terminou em segundo lugar na Copenhagen Cup, realizada no circuito de Roskilde. Em 1964, a empresa apresentou o Mk6, evolução de seu conceito de carro esportivo, e o Mk7, um novo monoposto destinado tanto à Fórmula 3 quanto à Fórmula 2, dependendo da motorização empregada. Foi um período particularmente importante: o jovem Chris Irwin conquistou vitórias e pódios com o Mk7, enquanto David Hobbs também obteve bons resultados com a versão de Fórmula 2. Naquele mesmo período, a Merlyn passou a enfrentar diretamente fabricantes como Brabham nas categorias de monopostos, embora sua estrutura ainda fosse a de uma pequena empresa independente.
A segunda metade dos anos 1960 trouxe uma sucessão de novos projetos. O Mk8, apresentado em 1965 como um carro esportivo equipado com motor V8, teve produção limitada e não alcançou o sucesso pretendido, enquanto os Mk9 e Mk9A continuaram a tentativa de estabelecer a Merlyn nas categorias de Fórmula 2 e Fórmula 3. Em 1967 surgiu o Mk10, importante principalmente na Fórmula 3, onde Tony Lanfranchi conseguiu quatro pódios e uma vitória no campeonato britânico. Um momento especialmente significativo ocorreu no Grande Prêmio Adriatique, no circuito de Opatija, então na Iugoslávia, quando o piloto da equipe oficial Dave Walker venceu e seu companheiro Martin Stephani terminou em terceiro, com os cinco primeiros colocados da prova utilizando Merlyn. O período também revelou uma característica que acompanharia a empresa durante toda a sua existência: a capacidade de adaptar rapidamente seus projetos às categorias emergentes sem abandonar a construção artesanal e a utilização extensiva de componentes produzidos internamente.
Mas foi com a chegada da Fórmula Ford, no final da década de 1960, que a Colchester Racing Developments encontrou seu território mais fértil. O Merlyn Mk11, lançado em 1968, nasceu essencialmente da adaptação e simplificação da experiência acumulada com os monopostos de Fórmula 3, recebendo o conhecido motor Ford Kent de 1.6 litros utilizado na nova categoria. O carro revelou-se imediatamente competitivo, e o australiano Tim Schenken venceu o campeonato BRSCC de Fórmula Ford 1600 em 1968, depois de alcançar uma sequência impressionante de vitórias. Para 1969 surgiu o Mk11A, com nova carroceria, alterações nas molas e outros aperfeiçoamentos. Um exemplar específico, o chassi 238, entraria para a história como o ‘Magic Merlyn’: conduzido por um jovem Emerson Fittipaldi, o carro ajudou o brasileiro a avançar em sua carreira antes da mudança para a Fórmula 3. Posteriormente vendido a Colin Vandervell, o mesmo Merlyn conquistou numerosas vitórias em 1970 e contribuiu para que Vandervell conquistasse o campeonato britânico de Fórmula Ford.
A ligação entre a Merlyn e pilotos que posteriormente chegariam à Fórmula 1 se tornaria uma das marcas mais curiosas da história da empresa. Depois de Fittipaldi, o próprio Jody Scheckter passou pelo universo Merlyn e chegou a trabalhar e competir ligado à empresa; ele conduziu um desses carros no início dos anos 1970 e posteriormente seguiria caminho semelhante ao brasileiro rumo à Fórmula 1. O fabricante também forneceu equipamentos para pilotos como Brian Hart, Robin Widdows e Dave Walker, enquanto seus carros encontravam compradores não apenas na Grã-Bretanha, mas também nos Estados Unidos, Canadá e outros mercados. A América do Norte tornou-se particularmente importante para a empresa, e posteriormente a Merlyn também ganhou presença significativa em escolas de pilotagem, incluindo a tradicional Jim Russell Racing Driver School.
No final dos anos 1960, portanto, a Colchester Racing Developments já havia deixado de ser simplesmente um pequeno construtor de Fórmula Junior. A empresa possuía experiência em praticamente todas as categorias de monopostos que formavam a escada de acesso ao automobilismo profissional e continuava desenvolvendo soluções próprias. O Mk12, por exemplo, foi concebido para a Fórmula 2 e utilizava o motor Cosworth FVA, enquanto o Mk14 demonstrou versatilidade ao competir tanto na Fórmula 3 quanto na Fórmula Ford. A chegada dos anos 1970 levou a Merlyn para novas categorias, incluindo Fórmula B nos Estados Unidos e Fórmula F100, mas a Fórmula Ford permaneceu como seu principal campo de atuação, com os Mk17, Mk20, Mk21 e modelos posteriores mantendo a marca competitiva em diversos campeonatos.
O sucesso alcançado pela empresa também pode ser dimensionado pela quantidade produzida. Segundo uma retrospectiva publicada pela Octane, mais de 600 Merlyns haviam saído da fábrica até 1978-1979, dos quais Clive Hayward estimava que aproximadamente 400 a 500 fossem carros de Fórmula Ford. A produção em pequena escala não impedia a empresa de conquistar uma parcela considerável do mercado internacional, e os Estados Unidos eram particularmente importantes para os negócios. Entretanto, a mesma estrutura que permitira à Colchester Racing Developments fabricar praticamente tudo internamente acabou contribuindo para uma mudança de rumo: o setor de ferramentaria, matrizes e usinagem de precisão tornou-se progressivamente mais atraente comercialmente. Com problemas financeiros e diante de um mercado de monopostos cada vez mais competitivo, os Hayward decidiram encerrar a construção de carros de corrida em 1979.
O fim da produção dos Merlyn, contudo, não significou o desaparecimento da companhia. Clive Hayward continuou ligado à Colchester Racing Developments e à fabricação de componentes para os carros existentes, além de serviços de reparação de chassis. A atividade passou também pela CRD Tool and Engineering, empresa que manteve por décadas a tradição de engenharia de precisão associada aos Hayward. A CRD Tool and Engineering deixou de operar em 2015, mas a própria Colchester Racing Developments permaneceu associada à fabricação de peças Merlyn e à manutenção de chassis históricos. Essa continuidade explica por que os carros produzidos em Colchester ainda podem ser encontrados em competições históricas e eventos de automobilismo clássico, muitas vezes preservados ou restaurados com componentes provenientes da própria linhagem que os construiu.
A trajetória da Colchester Racing Developments é, portanto, a história de uma pequena empresa inglesa que soube sobreviver em um ambiente dominado por fabricantes maiores graças à capacidade de projetar, construir e evoluir seus próprios carros. Dos primeiros Merlyn de Fórmula Junior aos bem-sucedidos Mk11 e Mk11A de Fórmula Ford, passando por Fórmula 3, Fórmula 2 e carros esportivos, a empresa construiu uma linhagem de monopostos que se tornou particularmente importante na formação de pilotos que mais tarde alcançariam a Fórmula 1. Mais de seiscentos automóveis, quase duas décadas de produção e uma longa relação com pilotos como Fittipaldi e Scheckter deixaram uma marca bastante particular na história do automobilismo britânico. E talvez o aspecto mais interessante dessa história seja justamente sua dimensão artesanal: enquanto os grandes construtores buscavam estruturas industriais cada vez maiores, a pequena fábrica de Essex continuava fazendo carros de corrida em escala limitada, mas suficientemente bons para colocar jovens talentos na trajetória das categorias internacionais.