LEPAS - A nova face da Chery para a era do luxo e da eletrificação
A história da LEPAS começa muito antes de seu primeiro automóvel chegar às ruas. Por trás da jovem marca está o Chery Group, um dos maiores fabricantes chineses e uma das empresas que melhor representam a transformação da indústria automobilística daquele país. Fundada em Wuhu, na província de Anhui, em 1997, a Chery construiu sua trajetória apostando desde cedo no desenvolvimento tecnológico próprio, na engenharia independente e, posteriormente, na internacionalização. Em julho de 2026, o grupo ultrapassou a marca de 20 milhões de veículos produzidos acumulados, depois de quase três décadas de atividade.
A vocação internacional da Chery também é antiga. Em 2001, pouco depois de iniciar sua produção de automóveis de passeio, a empresa realizou suas primeiras exportações, enviando uma pequena quantidade de sedans para o Oriente Médio. O que começou com uma encomenda de apenas dez unidades tornou-se, ao longo de duas décadas, uma das maiores operações de exportação da indústria automobilística chinesa. Em 2025, a Chery ultrapassou 5 milhões de veículos exportados acumuladamente, tornando-se o primeiro fabricante chinês a alcançar essa marca. Atualmente, o grupo está presente em mais de 130 países e regiões.
Essa experiência internacional é fundamental para compreender o nascimento da LEPAS. A Chery já havia criado outras marcas e linhas destinadas a diferentes públicos, mas percebeu que existia espaço para uma nova operação direcionada especificamente a consumidores urbanos que procuravam algo além da funcionalidade tradicional de um automóvel chinês. O objetivo era construir uma marca com personalidade própria, design sofisticado, tecnologia avançada e uma relação mais emocional com o consumidor.
Foi nesse contexto que, em 17 de outubro de 2024, durante o Chery International User Summit, a empresa apresentou oficialmente a nova linha de produtos LEPAS. Naquele momento, a Chery anunciou que o primeiro produto seria lançado até o final de 2025 e que outros modelos estavam em desenvolvimento. A proposta era criar uma família de SUVs destinada àquilo que a empresa chamou de uma nova geração de consumidores urbanos, mais interessados em estilo, tecnologia, experiência e autoexpressão.
O nome LEPAS carrega justamente essa intenção. A marca combina conceitos associados a ‘Leopard’, ‘Leap’ e ‘Passion’. O leopardo tornou-se o principal símbolo visual e conceitual da empresa, representando velocidade, força, agilidade e elegância. ‘Leap’ representa o salto - tanto tecnológico quanto geográfico - de uma marca concebida para ultrapassar fronteiras, enquanto ‘Passion’ traduz a dimensão emocional que a Chery pretende acrescentar à experiência de possuir um LEPAS. A própria marca resume essa combinação na expressão “Drive Your Elegance”.
Essa associação com o felino não é meramente publicitária. Ela deu origem ao conceito de design denominado Leopard Aesthetics, desenvolvido pelo chefe de design da LEPAS, Ivan Dulanovic. A inspiração veio da postura e dos movimentos de um leopardo em corrida, procurando transformar suas linhas musculares e sua agilidade em proporções automotivas. O resultado pretendido é uma combinação entre superfícies fluidas, postura esportiva e elegância, sem recorrer necessariamente à agressividade visual típica de muitos SUVs de alto desempenho.
Desde o começo, portanto, a LEPAS foi concebida como algo diferente de simplesmente mais uma linha de modelos da Chery. A empresa pretendia construir uma identidade própria, com desenho reconhecível, linguagem visual específica e uma filosofia direcionada a consumidores que valorizam o automóvel também como elemento de estilo de vida.
A estratégia tecnológica segue o mesmo princípio. A LEPAS foi desenvolvida para utilizar a arquitetura QPower, criada pelo Grupo Chery para acomodar diferentes tipos de propulsão. Em vez de limitar a nova marca a automóveis exclusivamente elétricos, a empresa adotou uma estratégia de transição energética mais ampla, permitindo a utilização de motores de combustão interna, sistemas híbridos plug-in e conjuntos totalmente elétricos. Essa flexibilidade permite que a marca adapte sua oferta às diferentes condições de infraestrutura e regulamentação encontradas nos mercados internacionais.
A decisão é particularmente significativa porque a LEPAS nasceu em um momento de enorme transformação tecnológica. Enquanto alguns fabricantes chineses passaram diretamente para os veículos elétricos, a Chery optou por trabalhar simultaneamente com várias soluções. A experiência adquirida durante décadas no desenvolvimento de motores de combustão foi combinada com novas tecnologias híbridas e elétricas. A própria evolução tecnológica do grupo demonstra essa trajetória: depois de desenvolver seus primeiros motores independentes no final dos anos 1990 e estabelecer uma estrutura de engenharia mais sofisticada em parceria com a austríaca AVL a partir de 2002, a Chery passou a investir fortemente em sistemas híbridos e elétricos.
A primeira fase pública da LEPAS ganhou força em 2025. Em abril daquele ano aconteceu a estreia global da marca e, em julho, o primeiro lançamento internacional. Em setembro, a Chery já apresentava a LEPAS como uma de suas principais apostas para o segmento premium internacional, posicionando-a como uma marca de mobilidade elegante e voltada a consumidores urbanos de maior poder aquisitivo.
A Europa tornou-se particularmente importante nessa estratégia. Em 2025, a LEPAS começou a construir sua presença europeia e, posteriormente, confirmou sua entrada no Reino Unido. Em fevereiro de 2026, a Chery anunciou oficialmente a LEPAS como sua quarta marca no mercado britânico, depois de OMODA, JAECOO e da própria Chery. O primeiro modelo britânico escolhido foi o LEPAS L8, um SUV grande de cinco lugares e motorização híbrida plug-in, cuja chegada foi programada para o terceiro trimestre de 2026.
A escolha do Reino Unido não é casual. A Chery está tentando transformar sua presença europeia em uma operação de longo prazo, e em agosto de 2026 anunciou a criação de um centro de pesquisa e desenvolvimento no complexo de testes UTAC Millbrook, em Bedfordshire. O objetivo é adaptar veículos às condições específicas das estradas britânicas e desenvolver tecnologias relacionadas a condução autônoma e inteligência artificial. A LEPAS faz parte dessa estratégia de internacionalização mais profunda, que pretende ir muito além da simples importação de veículos chineses.
O primeiro grande representante da nova marca é o LEPAS L8, concebido como seu modelo de topo. Trata-se de um SUV de cinco lugares equipado com sistema híbrido plug-in, utilizando motor 1.5 turbo associado a uma transmissão híbrida de alta eficiência. Dependendo do mercado, a potência total chega a cerca de 279 cv, enquanto a autonomia elétrica pode alcançar cerca de 100 km. O L8 foi concebido para representar justamente a combinação de elegância, espaço e tecnologia que a Chery pretende associar à nova marca.
Logo abaixo dele encontra-se o LEPAS L6, um SUV do segmento C que deverá desempenhar papel fundamental na expansão mundial da marca. O modelo está disponível com sistemas híbrido plug-in e totalmente elétrico. Na versão PHEV, a autonomia combinada pode alcançar aproximadamente 1.100 km, enquanto a variante elétrica utiliza uma bateria de 67 kWh e oferece autonomia de até cerca de 450 km, dependendo do ciclo de homologação.
A futura gama também inclui o LEPAS L4, modelo de dimensões menores destinado a ampliar o alcance da marca. A lógica da família é relativamente clara: L4 para os consumidores que procuram um SUV mais compacto, L6 para o núcleo do segmento C e L8 como representante mais sofisticado. Dessa maneira, a LEPAS pretende construir uma gama completa de utilitários esportivos sem abandonar a identidade visual comum.
Um aspecto interessante é que a marca não pretende se limitar aos veículos elétricos. Embora seja frequentemente descrita como uma marca de ‘nova energia’, sua estratégia inclui motores de combustão, híbridos plug-in e elétricos. Isso permite à LEPAS entrar em mercados nos quais a eletrificação ainda avança em velocidades diferentes. Ao mesmo tempo, a arquitetura foi preparada para que a marca possa aumentar gradualmente a participação dos veículos eletrificados conforme a infraestrutura e a demanda evoluam.
A filosofia da LEPAS também procura estabelecer uma relação diferente entre tecnologia e luxo. Em vez de simplesmente acumular telas, sensores e funções digitais, a marca fala em tecnologia “com calor humano”, procurando integrar os recursos eletrônicos à experiência cotidiana do usuário. O automóvel é apresentado como uma espécie de ‘terceiro espaço’, situado entre a casa e o trabalho, no qual conforto, conectividade e expressão pessoal passam a ter importância semelhante à própria mobilidade.
Essa preocupação é particularmente importante porque a Chery já dispõe de outras marcas para diferentes segmentos. A OMODA possui uma imagem mais jovem e tecnológica; a JAECOO procura explorar o território dos SUVs robustos e sofisticados; Exeed/Exlantix ocupa uma faixa premium mais tecnológica. A LEPAS, por sua vez, procura encontrar seu espaço em torno de design, elegância e estilo de vida, evitando uma imagem excessivamente utilitária.
A criação da LEPAS também revela a maturidade alcançada pelo Grupo Chery. Durante seus primeiros anos, a empresa chinesa precisava provar que era capaz de construir automóveis competitivos. Hoje, a questão é diferente. Com mais de 20 milhões de veículos produzidos e milhões de unidades exportadas, a Chery já possui escala suficiente para criar diferentes marcas destinadas a públicos específicos. O desafio passa a ser construir identidades suficientemente fortes para que essas marcas sejam reconhecidas individualmente nos mercados internacionais.
Nesse sentido, a LEPAS pode ser vista como um dos produtos mais sofisticados da estratégia de globalização da Chery. Ela não nasceu simplesmente para vender automóveis chineses fora da China; nasceu para criar uma marca global desde o princípio, com linguagem visual própria e uma proposta que possa ser compreendida em diferentes culturas. A própria empresa afirma que o ‘leap’ presente no nome representa justamente essa intenção de ultrapassar fronteiras geográficas e culturais.
A velocidade de expansão confirma essa ambição. Em poucos anos, a marca passou de um projeto apresentado dentro de um evento da Chery a uma operação internacional com presença planejada em diversos mercados. Na Europa, sua apresentação ganhou destaque durante a Milan Design Week, onde os L6 e L8 foram mostrados dentro de uma estratégia que colocava o design no centro da identidade da marca. A escolha de Milão, um dos grandes centros mundiais de design, foi coerente com a intenção de posicionar a LEPAS como uma marca emocional e sofisticada, e não apenas como mais uma fabricante chinesa de veículos eletrificados.
E talvez seja justamente esse o ponto mais importante de sua história. A LEPAS nasceu quando a indústria chinesa já havia superado a fase em que precisava simplesmente copiar ou alcançar os fabricantes tradicionais. Sua missão é disputar diretamente a preferência do consumidor por meio de design, tecnologia, eletrificação e identidade de marca.
A história da LEPAS ainda está apenas começando. Diferentemente de marcas centenárias como Mercedes-Benz, Peugeot ou Porsche, ela não possui décadas de competição, modelos lendários ou uma tradição construída ao longo de gerações. Seu patrimônio histórico é, na realidade, o próprio Grupo Chery: quase 30 anos de desenvolvimento independente, uma enorme experiência internacional, dezenas de milhões de veículos produzidos e uma crescente capacidade tecnológica.
Isso faz da LEPAS uma experiência interessante de acompanhar. A marca está tentando construir sua reputação simultaneamente em vários continentes, justamente em uma época na qual o automóvel está passando por uma transformação profunda. Seus produtos podem utilizar gasolina, eletricidade ou uma combinação das duas, mas todos precisam transmitir a mesma ideia: elegância como expressão de força.
Se a estratégia funcionar, a LEPAS poderá se tornar para a Chery aquilo que outras novas marcas chinesas já conseguiram fazer para seus respectivos grupos: uma porta de entrada para segmentos mais sofisticados e uma ferramenta para mudar a percepção internacional sobre a indústria automobilística chinesa.
Por enquanto, ela é uma marca jovem, ambiciosa e ainda em construção. Mas talvez seja exatamente isso que torne sua história tão interessante. A LEPAS não está tentando recuperar um passado glorioso; está tentando inventar sua própria tradição.
E, para um fabricante como a Chery, que começou praticamente do zero em 1997 e chegou a ultrapassar 20 milhões de veículos produzidos em 2026, criar uma nova marca global talvez seja a maneira mais natural de demonstrar até onde chegou.